sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mover-se


A proteção dilacerada pelas palavras escutadas na noite chuvosa. A vontade recolhida que envolvia lágrimas quentes em um rosto iluminado pela claridade do hotel em que se hospedava.
O resto da bebida ainda permanecia em seu copo,que tremia como a movimentação de acordes musicais. Não era de se esperar e prever o acontecido,que gelava o quarto, lugar anterior a um cenário de confissões,segredos nivelados,dúvidas e soluços:
-Desvenda-me. -repetiu.
- Como?
 
O silêncio agora envolvia a amargura e o gosto ácido da boca. Calaram-se.
Soluços,água,luz,bebida.Goles e mais goles. Primeiro,enxugou o rosto e acomodou-se em sua cama,enroscando-se como recém-nascido, apenas pedindo para que o sol entrasse pela janela e pudesse dizer bom dia . Depois,fitou-o mais uma vez e fechou os olhos. O amanhã responderia se ele fosse permanecer ali.
Mentira.


Isso tudo se revelava como uma mentira mal caracterizada,que se aderia a uma ampla forma de um quarto de hotel, na avenida movimentada da metrópole.
Sabia que ouviria a porta ranger e se fechar,podia compreender com a maturidade de sua idade; mas feria-se de forma proporcional à fragilidade de uma jovem.
Sentia as conseqüências quando balançava o copo. Se estabelecia com independência,movendo-se em direção ao que costumava chamá-la.
Talvez o problema tenha sido o mover-se, já que nem todos estão preparados para respostas, presos ao previsível ou a falsas seguranças.

   

Assim Como Uma Mulher

Ninguém sente dor alguma
Hoje à noite enquanto eu ficar debaixo da chuva
Todo mundo sabe
Que minha querida ganhou roupas novas
Embora recentemente eu veja suas fitas e seus laços
Caírem dos seus cabelos encaracolados

Ela te prende assim como uma mulher, sim, ela prende
Ela faz amor assim como uma mulher, sim, ela faz
E ela geme assim como uma mulher
Mas ela se magoa assim como uma pequena garota.

Rainha Mary, ela é minha amiga
Sim, eu acredito que vou vê-la novamente
Ninguém precisa pensar
Que minha querida não pode ser abençoada
Até que ela finalmente veja que ela é como os outros
Com sua avidez, sua anfetamina e suas pérolas

Ela te prende assim como uma mulher, sim, ela prende
Ela faz amor assim como uma mulher, sim, ela faz
E ela geme assim como uma mulher
Mas ela se magoa assim como uma pequena garota.

Estava chovendo pela primeira vez
E eu estava lá morrendo de desejo
Então eu vim aqui
E a sua já antiga maldição machuca
Mas o que é pior
É essa dor aqui
Eu não posso ficar aqui
Não está claro?

Eu não posso mais agüentar
Sim, eu acredito que é hora de desistirmos
Quando nos encontrarmos de novo
Apresentados como amigos
Por favor, não conte que você me conhecia quando
Eu estava faminto e aquele era o seu mundo

Ah, você engana assim como uma mulher, sim, você engana
Você faz amor assim como uma mulher, sim, você faz
Então você geme assim como uma mulher
Mas você se magoa assim como uma pequena garota

(Bob Dylan)



http://www.youtube.com/watch?v=ucu-ObHdf-w&feature=fvw

sábado, 21 de novembro de 2009

Abrigo



Jogou-se instantaneamente. Primeira vez desde que chegara em casa,sem o intuito de reviver.
Fora sempre tão frágil,mas agora permanecia em um estado freqüente de ânsia e desapego. Flutuava em instantes impermeáveis e vagorosos,sem pedir e sem pesar.
Paralelamente feita para usufruir e esquecer, para garantir um espaço que era seu por si só e naturalmente traçado para deixar-se e pôr os pingos nos is.
A dimensão que se expandia e dilatava-se. O local feito e desfeito por laços fortes e curtos, pela lã do cachecol de inverno e pelo vento que cantava o que apenas podia ser escutado.


Tecia fios e colava ideais na parede. Aparentava resquícios da maturidade antecipada e indesejada, mas temia ter que reaparecer e ser.
Duvidava de possibilidades e não temia qualquer tipo de rejeição, resignando-se em manter apenas o necessário dentro de si. Se era prático,logo concluia ser melhor; não gostava de remendar costuras. Apenas tecia,apenas desfazia, ria, ia, vivia.Criava,ambientava e guardava. 
  
Seu lugar imaculado e esquecido, particularmente vazio e indefinido.

sábado, 14 de novembro de 2009

Rodar,rodar e girar


Fazia bilhetes sem destinatário,sentava na beira da estrada para olhar o mundo da forma mais estranha e singular que pudesse, até que parava de ouvir,para ser escutada.
Tentava em vão entender, mas o amanhã não podia mudar sua condição,que sempre foi semear infertilidades.
Cacos e moedas achadas no chão chamavam sua atenção. Buracos da rua a faziam tropeçar e quando caía preferia ficar por ali. Sentia que fazia parte de construções e edifícios e que seu mundo era igual  a verdades nunca ditas e reveladas.
Esconder o que pensava provocava incógnitas que nem ela poderia responder. E quando indagada, fingia   falsas pretensões e desviava o rumo, pondo de lado o papel que costumava segurar.
 Chorava de porta fechada e ria em voz alta quando observada.
Extremos que nunca faziam sentido. Pontos desenhados por uma espécie de pessoa que não se orgulhava, mas que fazia parte do que a envolvia. O mundo visto por ângulos tão pessoais,que arrepiam os mais sensíveis e deixam os curiosos atentos a qualquer ruído.
 Não podia parar,precisava fazer o que a rodeava, rodar. Rodar sem pretensões,até que o infinito pudesse  pôr um empecilho e proibisse a sua volta e o girar de cada vida.



"Tem dias que a gente se sente
  Como quem partiu ou morreu
  A gente estancou de repente

 Ou foi o mundo então que cresceu...

  A gente quer ter voz ativa
  No nosso destino mandar
  Mas eis que chega a roda viva
  E carrega o destino prá lá ...

  
  Roda mundo, roda gigante
  Roda moinho, roda pião
  O tempo rodou num instante
  Nas voltas do meu coração..."


(Chico Buarque)

domingo, 8 de novembro de 2009

Oh,oh,oh,Jokerman

 


 O profeta da música folk norte americana.  O profeta  de composições que marcaram a música.   Sim, Bob Dylan.
O cantor,compositor,intérprete, engajado ou não, político e socialmente, que retratava com uma profundidade tão grande vários temas e dessa forma conquistou um público tão grande e fiel.


Acredito que as maiores bandas que tenham surgido foram geniais por serem simples, e justamente essa   simplicidade que as tornou e as fez desse modo. É uma opinião completamente parcial,porque faço referência direta ao que foram os Beatles.
É ao mesmo tempo uma referência e uma comparação,porque Dylan foi simples,e por isso mesmo,tão brilhante como uma “shooting star”.

Revolucionou concepções musicais, revolucionou a arte e sua forma, influenciou  e influencia grandes bandas,que já surgiram ou venham a surgir.
Foi o filósofo de uma geração,cantou com sentimento e uma expressão tão única e bela. Alcançou o coração de uma juventude, uma eterna juventude.
Dylan é imortal.

 Senhor tocador de gaita,”toque uma canção para mim, não estou dormindo e não há lugar onde eu possa ir”.



Incerto


Era o café que costumava acordá-lo de dia, para uma rotina tão previsível como a chuva incessante da cidade onde morava.
Já fazia dez anos desde que saíra de casa,com o propósito de se reencontrar,não deixando rastros do que costumava ser,do que era,do que foi.
Não havia criado muitos vínculos,tão quanto  familiares.Havia deixado para trás poucos amigos, amigos esses que não passavam de uma contagem de cinco dedos da mão.
Alguns  partiram para um lugar sem fronteiras ou sem dor,como costumava dizer a si mesmo. O vazio deixado por eles era imensurável.
Mas com o tempo,a dor passa a não ser sentida e as lembranças são apagadas pelo esquecimento natural de cada pessoa ou simplesmente pela idade e suas conseqüências.
Tudo tão natural como o vinho no fim da noite, em frente ao piano que não era tocado.
Quando parava para analisar fatos e tentar ser levado por sua razão, o efeito que criava em si mesmo era o oposto de sua necessidade e até mesmo de sua aspiração. As mesmas perguntas o indagavam e a mesma frustração o atormentava. Não havia resposta para elas,nem mesmo nos livros que tanto ocupavam  seu tempo. Mas ele  não era o tipo de pessoa resignada,que se convencia de que algo era imutável ,sem nenhuma justificativa ou sentido.
Deveria haver sentido,deveria haver razão,deveria haver. Sem pontos finais.


E  movido por respostas e cansado pelo costume , subitamente levantou-se. Deixou o copo na mesa,olhou à sua volta , estendeu os dedos e lentamente permitiu-se.


Tocou a melodia que supria suas necessidades, tocou para voltar a não ter medo de qualquer fuga ou encontro.
O imutável já havia adquirido outro sentido e a poeira do piano nunca mais fora percebida.





quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Vagarosamente sensível



Sonhar já não era mais um pedido nem solução. Havia se tornado o concreto do que era perder-se e um lamento do encontrar-se. Seu ser aspirava o momento como a fugacidade de um segundo contado pelo relógio.
Prendia-se em dias chuvosos,compostos da continuidade do viver; seu viver que se estendia até os lençóis de sua cama.
Costumava acordar como se tivesse nascido e visto o mundo pela primeira vez,sempre com um suspiro gelado e misturado ao medo e prazer de existir.
Tinha o hábito de ultrapassar-se,tangenciando mentiras,estradas e espelhos. E havia momentos em que seu limite parecia não ter fim,sempre paralelo aos seus atos,tão sensíveis ao ambiente falso.
Era plasticidade e vidro. Quebrava-se facilmente,quando que,por um instinto interno,jogavo o copo contra a parede e rasgava os retratos do ontem.

domingo, 25 de outubro de 2009

Incompreendido



 Só porque não tinha,gostaria de ter. 
 Só porque não havia restos,sobras,inteiro ou metade,gostaria de aproveitar o todo. O todo como um só,como único;como a unidade do desejo que só podia ser saciado por si mesmo.
 Quando a vontade e a aspiração concretizada se encontravam,provocavam um sentimento de resignação no olhar do garoto,que refletia seu interior escondido pelo tempo. Esse tempo que o ensinou a ser e a fingir,simultaneamente. 
Mas era fácil,havia se tornado fácil,costumava dizer. Porém mentir ou inventar não eram de sua natureza,que pulsava pelo concreto e sincero e talvez pela pureza sem ingenuidade.
 Difícil era ter que se adaptar. Sempre fora difícil esse processo de se reestabelecer dentro de um ambiente, muitas vezes delimitado pelo acaso. Ou pela sorte,segundo os místicos. 
Compreendê-lo? Tarefa enigmática.
Ele não queria ser compreendido nem desejava a compreensão. Só desejava que o desejo batesse à sua porta e prontamente dissesse:
 - Estou aqui e pretendo voltar até que não me queira mais. 


É,esse era o fio de sua vida. O fio grosso,mas que podia ser cortado por uma tesoura de costura.