sábado, 26 de dezembro de 2009

Enquanto minha guitarra gentilmente chora




Tudo começou quando o mundo não conhecia o sentimento que pode movê-lo, mas que foi expresso de forma tão inesperada e intensa,que entrou para  a História.
Tudo começou quando quatro pessoas se reuniram para fazer músicas,aparentemente simples e com letras ingênuas,trazendo esperança no coração de pessoas desacreditadas diante de um mundo conturbado e instável.
Tudo começou quando surgiu em Liverpool,os jovens com suas respectivas singularidades: Os Beatles.
E assim o mundo teve o prazer,sorte ou qualquer adjetivo que melhor se encaixe para descrever a sensação do poder jovem e sua força,que moveu uma legião de fãs e ainda hoje,sim,ainda hoje  - mesmo através de uma variedade musical no cenário atual – arranca lágrimas e conquista corações.

Dizer que algo é perfeito,é afirmar de forma ousada  algo que ultrapassa  a realidade e a própria natureza humana; mas tenho a ousadia e a convicção de dizer que a parceria entre Paul,John,George e Ringo foi e é, digna dessa nomeação.
Não é à toa,que é considerado um dos grupos musicais mais bem sucedidos da História.

A longo da carreira podemos ver a inocência,o comportamento,as vestimentas,mudarem  de acordo com o amadurecimento pessoal de cada membro do grupo;cada um com sua respectiva influência, adicionando - se é que é possível - mais genialidade às músicas.
“Os Reis do iê iê iê” que encantaram fãs enlouquecidas em programas de auditório e grandes shows,repentinamente são vistos introduzindo a cítara e cultura indiana-através de George- ou fazendo canções sobre o “Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”,além da individualidade e personalidade de cada um muito bem representadas no “Álbum Branco”.
Canções sobre  amor, a esperança  necessária nos momentos mais difíceis,como “Blackbird” (“Melro cantando no silêncio da noite, pegue essas asas quebradas e aprenda a voar..”), amizade, solidão,tão profundas e poéticas,presente em cada álbum, em cada obra-prima.

Como diria George: “All things must pass”(Tudo deve passar), e dessa forma,os Beatles passaram por nós,mas sua presença é eterna.
E  está eternizada,através das canções,trabalhos,carreiras solo de cada um; mas principalmente na lembrança de cada pessoa,que alguma vez, dançou animadamente “Twist and Shout”,cantou “Hey Jude” ao lado de pessoas queridas ou declarou amor e amar através de “Something”.

"And in the end,the Love you take is equal to the Love you make"( “E no final,o amor que você recebe é igual ao amor que você doa”).



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Fugaz



E perdido, feliz,ausente e distraído,conduzia a si mesmo para a estrada sem fim. Congelado pelo medo e prazer de viver,simplesmente vivia. Entretido em sentir-se real, resolvia parar de andar,para que o caminho estivesse preparado para o seu retorno. Multiplicava o que havia dentro de si,para exteriorizá-lo através de sonhos e ímpetos não mais secretos,porque não havia tempo para segredos ou falsas verdades. Aliás,não havia verdades,nem mentiras; apenas a realidade,que completava o querer,a falta e a solidão.


A pena do hoje e o carinho resguardado do ontem, que ocupava-se com o agora. Só existia o existir e nada mais, além das nuvens do céu e a sensação vagamente silenciosa de ser.
O contentamento não satisfeito, o imprevisível e a liberdade anterior ao seu nascer. Tudo anterior a receios,suspiros e dúvidas,representantes do que era conhecido até então, pelo mundo e pelos sentidos que cruzaram-se,gerando o fruto do Tempo.
Tempo esse tão distinto e misterioso,senhor do acaso e concreto.


Transformando e rodando,impreciso e cauteloso,como a sabedoria dos milênios resguardados no infinito.




Tudo deve passar


"O nascer do sol não dura a manhã toda
Um céu carregado de nuvens não dura o dia todo
Parece que meu amor está acabado e a deixou sem nenhum aviso
Não será sempre cinza assim

Tudo deve passar
Tudo deve ir embora

O pôr do sol não dura a tarde toda
Uma mente pode soprar essas nuvens pra longe
Depois disso, meu amor está acabado e deve ir embora
Não será sempre cinza assim

Tudo deve passar
Tudo deve ir embora
Tudo deve passar
Nada na vida pode durar pra sempre
Então, devo seguir meu caminho
E encarar um novo dia

A escuridão só fica durante a noite
De manhã vai desaparecer
A luz do dia é boa ao chegar no momento certo
Não será sempre cinza assim

Tudo deve passar
Tudo deve ir embora
Tudo deve passar
Tudo deve ir embora  "



(George Harrison)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Flexível



Ninguém costumava notar sua ausência ou alienação. Quando calava-se,mantinha o disfarce assim como a pedra de gelo do seu copo.
Sabia que não podia manter por muito tempo o fim,precisava antes de tudo conhecer suas limitações e o que o antecedia,para  enfim saber alinhar as verdades e renunciar as escolhas.
Temia ter que relutar ou insistir em idéias fixas. Preferia muito mais a capacidade espontânea de mudar e trazer com isso uma nova perspectiva que pudesse sobrepor a anterior,substituindo o que antes era essencial e particular, tão íntimo e verdadeiro.


Deveria ser recompensado por ter acumulado dívidas consigo mesmo e a melhor forma de fazê-lo era se perdoar.
Quando feito isso,podia admitir sua existência e voltar a sentir. 
Não faltava perseverança,mas faltava o desconhecido que necessitava mudar sua própria condição. Mas como mudar a condição de algo que não se conhece?  
Primeiramente: tentando conhecê-lo. E eis que surge a dúvida: como?


Pensou,pensou,pensou. Não chegava a lugar algum,nem mesmo na cama que ficava ao lado de sua mesa.
Adquiriu um semblante vago:
E  se passasse  a conhecer o desconhecido, como poderia distinguir o que antes era  do que já não é mais ?
Saberia, então, que a sua condição antes permanente já havia adquirido outra tão permanente como a anterior?


Dúvidas  traiçoeiras como a noite tempestuosa que escondia suspiros perdidos e gemidos calados.

sábado, 12 de dezembro de 2009

E não é



Bastava um sim e tudo poderia recomeçar:


- Entenda e compreenda,já que não foi assim que foi deixado e depois esquecido,o bilhete escrito em meio a gritos e confusão.
Perdoe se fui ausente,talvez carente e demasiadamente amante. Não era a intenção,causar dor e também incompreensão. Peço agora,cautela e distração. Peço que não se ausente e nem tente ir agora, o que restou é ainda o suficiente para um coração.


- É estranho,com garantias ou não,sentir-se aprisionado sem motivos ou traição.
Vá embora, não leve nem sinta,mesmo que ainda sobre migalhas do passado que assombra o seu leito, minha cama,nosso lar. Não se guarda ou esconde, o que o ontem pode mudar.


.
Mil Perdões


"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais



Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim



Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)



Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair"



(Chico Buarque)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Blowin' in the wind



                                
                          Será?
 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pertencendo a si mesma




Dizia que antes de se sobrepor ou imaginar,precipitava-se e corria.
Não sabia o que fazer consigo mesma,como agir sem que pudesse ser descoberta ou adivinhada.
Gostaria de permanecer na sombra,do outro lado da estrada,em outra direção,em constante anonimato.


Não poderia encolher novamente nem sentir que entregou o que havia perdido,já que há uma diferença grande entre perder e entregar.
Nunca admitira sequer qualquer entrega.
O sol não a acolhia como antigamente e consolava como ontem,nem as nuvens tempestuosas  choviam incessantemente  da forma como antes previra. Saudosa,estendia a toalha no chão e sentava.


E era com uma intensidade e ardor que  imaginava desmembrando a si mesma,o corpo,a mente,o espírito,resquícios do que antes era e já não mais será,porque deixou ver-se como nunca antes vira.
Resgatou o que estava perdido,além de pedidos e ausência. Tornou-se uma morada que ambicionava ser uma vereda e porto. Não queria mais  o deserto nem  estar sobrevoando lugares muito longe do chão; pelo contrário,almejava o chão,a parede,o concreto,mesmo que isso provocasse a acidez do que era mais verdadeiro em si mesma. O áspero a  interessava,mas tinha que ser profundo ao ponto de que suas feridas doessem até cansar e se acomodassem com isso.
O silêncio substituído pela força de um grito,antes interno e agora tão visível. Tudo,antes  visto como uma piada,adquiria uma nova forma,mais interessante e menos vaga.
Ninguém podia mais calar-se ou se esconder. Rasgando medos,deixando o depois para o agora e continuando a beber o que buscava: pretensões individuais materializadas na libertação do consciente favorecido pelo anseio e caminho.
Olhos que passavam a cantar o que escondia e o amor.


''Loving is free,free is love
Love is living,living is love
Love is needing to be loved"  (Lennon)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ausência



Procurava manter-se calmo, correspondente a  toda passividade justificada pela inércia momentânea ao qual mantinha-se .
- Devia estar afundando,seria melhor. - comentava aos ouvidos compreensivos de sua esposa.


Ela o entendia,mas era cautelosa por medo da contínua instabilidade de seu companheiro. Acostumada a tanto e despertada pela dependência,estendeu os braços e com uma singela carícia,alertou-o a abrir os olhos.
Disse que era preciso desvendar-se. Viver alheio não era a melhor forma de encarar o que o envolvia e salientou palavras que soaram secas,mas tão verdadeiras como o real:
 -É necessário sair de dentro de si – disse ao marido.


Ele ainda não compreendia o que era substituir o outro por  si mesmo. Não entendia quando a alma calava e  não compreendia  que o sopro da vida é fugaz. Distraía-se continuamente dentro do vazio, recluso a tempestades.
   Desajustado estava,então.


“Se o murmúrio do mar está sempre em meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando...” (Vinicius de Moraes)