sexta-feira, 12 de março de 2010

Nada por dizer



Na sua mesa estava o livro que acabara de ler: ele contava  a trajetória de um anti-herói,que cometera crimes e não sentira pudor nem remorsos. O livro fora escrito antes de ter nascido e antes de conhecer o que sabia até agora: não havia espaço no mundo.
O que fora um crime para o protagonista da história que lera? Ele entendera bem: quem cometera o ato não sentia dor.
E havia punição?Era certo punir?Era certo perdoar?

Afinal,não sobrava lugar. Quando terminara de ler,um sentimento amadurecera em si mesmo,era uma sensação de desconforto misturada a uma crescente cólera; corrompia,asfixiava.
Ele sentia o peso da compreensão: naquele momento se tornara uma vítima.
“E nascera,crescera, procurara progresso e morrera tão súbito e repentino" ,pensava deitado em sua cama.
Podia vender esmola em um mundo esquecido,mas não podia esquecer. Nunca,jamais.





"Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo. 
Eu só sei de mim,de nós,de todo mundo.
  
Eu vivo preso 
A sua senha
Sou enganado


[...]


Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada


Eu só sei de mim
Só sei de mim
Só sei de mim"


(João Ricardo-Secos e Molhados)