terça-feira, 16 de março de 2010
Vazio
Que ruído fora esse que escutara? Que apelo fora esse que dizia apenas pelo olhar?
E ficara difícil de respirar,mas o ruído abafado do vento batendo na janela eternizara na sala. Aquela lembrança se tornara vívida e a solidão sua singela companheira.
A idade chegara e o que sobrara para ele,aos poucos, adquirira o gosto simbólico da juventude, que morava ao lado do sentimento nostálgico.
Aquele repentino cheiro de café torrado o emocionara. Não chorara por tanto tempo; a conformação era a tarefa de casa.
Pois começara a indagar: e quando fosse embora para sempre,sobraria um pouco do que se tornara para o amor? E amor fora o que deixara?
Sabia que não. O ritmo da música em descompasso com o tempo e o vaso de planta ao lado do lustre se encaixavam - o primitivo e o natural.
Mas ele fora filho do tempo e permanente confidente.
"Que amargo sentir o peso da idade e com ele sobreviver a memória" - dissera para o retrato.
E o relógio avisava: é hora de ir.
"Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
[força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
[esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo." (Drummond)