quarta-feira, 5 de maio de 2010

Demasiadamente Clarice



"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós."


O olhar esparçado, o cigarro ao lado de sua mesa e na mesa o que escrevera. A mulher muitas vezes muda e diriam alguns,feiticeira. Se escrever como nunca alguém escrevera antes e desvendara as mazelas, desatinos, dores - o novo a cada palavra - for caracterizado como feitiço ou mágica, sim, então ela fora uma bruxa. Encantara profunda e singelamente a mim e a tantos outros. Conseguira trazer Macabéa, a explosão de sentimentos e a solidão de donas de casa,mulheres e suas verdades - e mais do que tudo,a feminilidade doce.


Ler Lispector,diria, é para alguém que busca a desconstrução do que antes achara que entendera algum dia. Ela tece,destece e como ninguém fizera,toca na ferida- a ferida que embora tenha cicatrizado,deixara o seu veneno ainda.
O crime de Martim e a maçã no escuro deixaram sua marca,o pulso de vida e a realidade contínua e ambulante - o espelho que reflete o que fora do que se tornara.


Clarice é desvendada,nua e sincera, a cada página e palavra pronunciada por mim e por admiradores e companheiros de sua literatura. Desejo novas descobertas a quem tenha a vontade de ser despertado por essa feiticeira e embora muito me doa, ela partira.


"Meu Deus,só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."   [A Hora da Estrela]

"A verdade não faz sentido,a grandeza do mundo me encolhe."