sábado, 19 de junho de 2010

"Você nunca poderá manter a primavera"



A sua casa retinha um ar de confissão e segredos nivelados: os livros que lera por todos esses anos nunca lhe ensinaram a viver- pois toda vez em que se achava em uma situação dolorosa de escolha, dessas em que cada pessoa maneja de seu próprio modo- ele procurava ajuda em páginas com letras agudas e que acabam por silenciá-lo:

- É estranho viver de algo que no momento não tenho. Seria esse o futuro?- perguntara,altivo e obstinado à sua mãe,que se encontrava colérica e doente: “essa pobre senhora morrerá em breve", pensavam as pessoas que olhavam-na em misericórdia momentânea.

De repente já fora satisfeito: a sua barba crescera durante a semana,o seu rosto transfigurara-se pálido e ausente, o seu olhar era um náufrago de imagens que foram vistas apenas por seus antepassados e os seus ombros,sobretudo os ombros, suportavam o peso do tempo. Suas mãos solitárias procuravam o calor de outras mãos: toda vez que se perdera, pedia consolo no colo de alguma mulher que pudesse dispor apenas de tempo para escutá-lo.

E em noites onde a carência batia em sua porta, tão faminta e desesperada,ele caminhava para o porto de sua cidade e vigiava a noite sem estrelas,com a companhia de seu livro e o anseio desmitificado da realidade: apoiara-se na falsa segurança de que o amor é sempre em vão.
“Afinal, o amor não é um quarto de hotel? É  necessário até onde o prazer é o seu consolo.” Admitira certa vez a uma viúva que sempre cedera sua cama e atenção,cega de uma  servidão refletida na falta de amor próprio.

E o tempo passava, deixando traços em seu rosto, revelando-se certeiro e presunçoso- mas o seus ombros,sobretudo os ombros,suportavam o peso da idade e monotonia.