sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ulisses



Ele a olhara timidamente, com certo espanto de notar que acabara de acordá-la com uma lambida. Ela abrira os olhos, despertara de um sono profundo. Fora então que sorrira para o seu cachorro. "Ele sempre tivera esse ar ingênuo de uma criatura que se doa por inteiro. Ele também sempre parecera um cão frágil que podia ser abandonado por qualquer pessoa." - pensara.  Ah, mas esse pensamento a feria como duras farpas.

 Ele que, nunca tivera consciência de si mesmo, mas  a despertara com uma alegria mansa e doce. Ele que, por apenas existir, preenchia a vida de amor.  Ele que, resignado à solidão de animal que fazia parte de um mundo ininteligível, abanara o rabo com a liberdade da vontade. 
Ela que o enxergara como um Outro. Ela que, naquela manhã, se dera conta de que ele sempre a amara.
Ele que, na condição ingênua de cachorro, soubera ser amado. 



"Esquecido agora, na ausência do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção ao dono. Ulisses o viu, voltou a cabeça e, tocado por sua aparência, verteu uma lágrima..." 
 - Odisséia



Ulysses Bôscolo

segunda-feira, 8 de abril de 2013

(in)completo


esse sufoco brando e contínuo. e sentira esse pulsar gradativo do peito - estava viva. e lembrara que tudo girara em torno do princípio do prazer:  sim, como ela poderia se abster de si mesma? fizera escolhas guiada pela justificativa cega do amor. mas que amor fora esse que se confundira todo em pranto? desse não- tempo, aceitara a condição de esperança. mas soubera desde o início que se enganara. 
 acontece que sempre pertencera à solidão. 

solidão de ser.
sol. 
sun.

here comes the sun.

mais uma vez a dura tarefa de esquecer. incompletude e vazio. 
palavra como quarta dimensão. palavra como consolo e abismo.