Ele a olhara timidamente, com certo espanto de notar que acabara de acordá-la com uma lambida. Ela abrira os olhos, despertara de um sono profundo. Fora então que sorrira para o seu cachorro. "Ele sempre tivera esse ar ingênuo de uma criatura que se doa por inteiro. Ele também sempre parecera um cão frágil que podia ser abandonado por qualquer pessoa." - pensara. Ah, mas esse pensamento a feria como duras farpas.
Ele que, nunca tivera consciência de si mesmo, mas a despertara com uma alegria mansa e doce. Ele que, por apenas existir, preenchia a vida de amor. Ele que, resignado à solidão de animal que fazia parte de um mundo ininteligível, abanara o rabo com a liberdade da vontade.
Ela que o enxergara como um Outro. Ela que, naquela manhã, se dera conta de que ele sempre a amara.
Ele que, na condição ingênua de cachorro, soubera ser amado.
"Esquecido agora, na ausência do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção ao dono. Ulisses o viu, voltou a cabeça e, tocado por sua aparência, verteu uma lágrima..."
- Odisséia
| Ulysses Bôscolo |