A vida a surpreendera. "Cada coisa tem um instante em que
ela é” – pensara.
E percebera a fragilidade que é ser, mas esse ser que está
no futuro. Concluíra, sentada no vagão, que a morte a espreitara desde que nascera. Mas parecia tão simples e
claro, e no entanto aquelas pessoas no vagão transitavam levando mochilas,
livros, absortas nos próprios problemas: elas não se davam conta de que também
são finitas? Isso a machucara profundamente, como uma farpa incrustada no pé.
Era doloroso, incômodo. O tempo que
passara esperando o ponto em que deveria saltar do trem, fora o suficiente para
aceitar o que penosamente descobrira: carecia de amor.