quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Como é estranho,como é comovente que essa rigidez seja tão frágil. Nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la"

Os olhos marejados,a respiração pausada e a rigidez de seu rosto se modificaram em um instante torturante. 
Ela nunca dissera de forma clara sobre sua dor íntima e aguda,vivera sempre encolhida e distante,em uma espécie de torpor incrédulo diante da vida. O que a afligia tanto? - eu pensara. Até que me tornara tão distante dela,que esse afastamento modificara a  minha compreensão do mundo que a envolvera por tanto tempo.


Certa vez,estava sentada no sofá, ela veio como que atingida pela dura realidade de sua finitude. Dissera assim:  - Esse meu silêncio...ele é a manifestação dessa náusea que se apodera de mim. Eu corro o risco da incerteza.
Eu,absorta em mim mesma,olho para ela e respondo: - Eu nem mesma sei quem sou,como posso ajudá-la? Sua melancolia é a mais doce liberdade que alguém pode ter, porque sua dor se transforma lentamente no que fora e aí então, a vida se dá por insaciável aridez.
Ela,admirada com minha resposta,enrubescera e timidamente retornara ao seu quarto.


Fora nesse momento que me arrebatara uma sensação que nunca sentira antes: por um instante,eu pude ver o mundo tal como era e sempre fora,a realidade pura e sufocante. O meu desejo se apoderara de mim por completo e me entreguei novamente à desorientação,essa  mesma que me acompanhara desde o meu nascimento.