Esboçara esse sorriso diante da lembrança que tivera: o
desejo de ser a ultrapassara. Ela, que nunca fora. O seu primitivo pulsara por vida – seria
essa, afinal, a palavra que tanto procurara: liberdade? E dissera assim, como
se tivesse cometido um crime: Sou livre e só. E
então o medo lhe atingira porque descobrira com espanto como é ser mulher.
Durante parte de sua vida nunca adquirira consciência de si mesma, era
como se vivesse em uma espécie de hiato. O que a distinguia do cachorro que
viera recepcioná-la com um amor ingênuo? Pensara assim: Ele não sabe que um dia vai morrer. Era isso
então. E por um breve instante, ela intimamente invejara aquele animal.
E os dias se estendiam vagarosamente: pareciam
intermináveis. Perguntara a si mesma: e depois? O que vem depois? Mas aos
poucos uma ideia lhe sobressaltara: o inesperado a consolava. Porque se sentira frágil e pequena, tudo a
feria. Ela que quisera tanto, como se pudesse se apoderar de tudo que a envolvia. Como se de repente a realidade pudesse ser
expressa em palavras – mas sabia que era inútil. Tudo não passara de um sonho,
afinal.