domingo, 23 de dezembro de 2012

"Eu, viva e tremeluzente como os instantes"



Esboçara esse sorriso diante da lembrança que tivera: o desejo de ser a ultrapassara. Ela, que nunca fora.  O seu primitivo pulsara por vida – seria essa, afinal, a palavra que tanto procurara: liberdade? E dissera assim, como se tivesse cometido um crime: Sou livre e só. E  então o medo lhe atingira porque descobrira com espanto como é ser  mulher.  
Durante parte de sua vida nunca adquirira consciência de si mesma, era como se vivesse em uma espécie de hiato. O que a distinguia do cachorro que viera recepcioná-la com um amor ingênuo? Pensara assim:  Ele não sabe que um dia vai morrer. Era isso então. E por um breve instante, ela intimamente invejara aquele animal.   

E os dias se estendiam vagarosamente: pareciam intermináveis. Perguntara a si mesma: e depois? O que vem depois? Mas aos poucos uma ideia lhe sobressaltara: o inesperado a consolava.  Porque se sentira frágil e pequena, tudo a feria. Ela que quisera tanto, como se pudesse se apoderar de tudo que a envolvia.  Como se de repente a realidade pudesse ser expressa em palavras – mas sabia que era inútil. Tudo não passara de um sonho, afinal.