Os olhos se mexiam de acordo com o movimento pendular do
relógio: tic-tac- tic-tac, barulho que amortecia o tédio e o vazio. Os ponteiros se afastavam e uma idéia a
consolava: ela existia. Movida pelo simples desejo de percorrer esses ponteiros,
se metamorfoseando em tic-tacs do relógio.
Tempo? Precisava inventar algo que ultrapassasse essa condição de
linearidade: no fundo sabia que o desejo fora apenas uma construção desse tempo
que a confundia por inteiro. O vazio, o tédio e o nojo rapidamente se
transformaram em indiferença. O que a
iludia com tanta perfeição? Era possível transcrever em palavras o que sentia? Mas
é que no fundo soubera, bem no fundo mesmo, que o desejo fora apenas um engano –
algo criado para preencher a falta de significado. Porque percebera que buscar
um sentido fora a própria incompreensão da dor.