quarta-feira, 2 de julho de 2014

Relógio


Os olhos se mexiam de acordo com o movimento pendular do relógio: tic-tac- tic-tac, barulho que amortecia o tédio e o vazio.  Os ponteiros se afastavam e uma idéia a consolava: ela existia. Movida pelo simples desejo de percorrer esses ponteiros, se metamorfoseando em tic-tacs do relógio.  Tempo? Precisava inventar algo que ultrapassasse essa condição de linearidade: no fundo sabia que o desejo fora apenas uma construção desse tempo que a confundia por inteiro. O vazio, o tédio e o nojo rapidamente se transformaram em indiferença.  O que a iludia com tanta perfeição? Era possível transcrever em palavras o que sentia? Mas é que no fundo soubera, bem no fundo mesmo, que o desejo fora apenas um engano – algo criado para preencher a falta de significado. Porque percebera que buscar um sentido fora a própria incompreensão da dor.