terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"É um exílio sem solução.."

Mas é nesse instante torturante que tudo se afigurara para mim: nesse instante de dor que,entrecortada e ferida,sou. 
 Nesse instante me vejo entre a consciência de minha finitude e a condenação de um destino fatal. Como posso permanecer fiel à minha própria liberdade?Como posso viver consciente de que tudo o que me ampara e envolve - assim como o amor e a gravidade do mundo - será,um dia,negado a mim?
Estou perdida: a sobriedade do real me atingira por completo. 
E esse esforço solitário unido a rigidez de meu rosto me condenam. Isso é o absurdo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Como é estranho,como é comovente que essa rigidez seja tão frágil. Nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la"

Os olhos marejados,a respiração pausada e a rigidez de seu rosto se modificaram em um instante torturante. 
Ela nunca dissera de forma clara sobre sua dor íntima e aguda,vivera sempre encolhida e distante,em uma espécie de torpor incrédulo diante da vida. O que a afligia tanto? - eu pensara. Até que me tornara tão distante dela,que esse afastamento modificara a  minha compreensão do mundo que a envolvera por tanto tempo.


Certa vez,estava sentada no sofá, ela veio como que atingida pela dura realidade de sua finitude. Dissera assim:  - Esse meu silêncio...ele é a manifestação dessa náusea que se apodera de mim. Eu corro o risco da incerteza.
Eu,absorta em mim mesma,olho para ela e respondo: - Eu nem mesma sei quem sou,como posso ajudá-la? Sua melancolia é a mais doce liberdade que alguém pode ter, porque sua dor se transforma lentamente no que fora e aí então, a vida se dá por insaciável aridez.
Ela,admirada com minha resposta,enrubescera e timidamente retornara ao seu quarto.


Fora nesse momento que me arrebatara uma sensação que nunca sentira antes: por um instante,eu pude ver o mundo tal como era e sempre fora,a realidade pura e sufocante. O meu desejo se apoderara de mim por completo e me entreguei novamente à desorientação,essa  mesma que me acompanhara desde o meu nascimento.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Diana

Como posso descrever essa ausência que me emerge por inteira - dentro do que sou,esse amor se transfigura na recordação de que você fora plena do mundo. Ainda me lembro - e como dói - que você me fitara com seus olhos mel e aí então uma lágrima percorrera o meu rosto: passiva e doce,se aconchegara timidamente ao meu lado como a dizer que me amava.
Ao admitir que hoje você me é saudade,estabeleço uma profunda comunhão entre solidão e meu  pertencimento ao real. Porque essa carência advinda da dor é o sentimento simbólico de vida. 


Ao abrir a porta, minha doce Diana abanara o rabo e me recepcionara com a saudade velada do tempo. Fora então que o orvalho da manhã me avisara: é hora de se despedir. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Carta à Macabéa

Escrevo advinda de um profundo instinto doloroso: me permite ser-você como fora  no tempo-contínuo dilacerante. 
É que me dói saber que você fora embora - me deixara sem descobrir o rudimentar sentido de ser?Admiro-a tanto,deve saber. Tudo que a compõe - seus trejeitos desalinhados e imperfeições distintas - carecem da dura realidade: como é possível estremecer de amor diante da poética crua e verdadeira. 
Escrevo porque preciso dizer a dolorosa carência de ser: se aperceber no mundo é de tamanha lucidez que...já não sei me expressar. 
Um pássaro pousara no meu ombro hoje e me lembrara do que dissera ontem - ou fora no tempo-contínuo? - sobre a doce plenitude da carência:  me (des)faço por completo através de ti. Perguntara certa vez,altiva e colérica, sobre a iminência de um milagre. Eu ,atraída por tamanho desconforto, não soube responder, o silêncio me envolvera com sua sabedoria.


Escrevo,sobretudo,porque desde o início você despertara o amor - amor esse que se doa profundo e singelo sem perguntar o indizível. Lamento não tê-la conhecido,mas admito que o meu primitivo espanto de vida pulsa por sua prosa indecifrável.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

"E deixo que você seja. Isso lhe assusta?"


E me arrebatara o gélido sopro da vida. No meu coração se afigurara uma alegria primária,dessas que só se tem quando se morre: a vida por si só me assustara. E me dera conta de que o não-tempo é ilusório e a matéria é feita da brevidade de mim: mas quem sou?
Procurara em vão respostas,embora o que precisara intimamente sempre fora lágrimas de compaixão pela dor. Compaixão? Não. Seria apenas a vertigem do nascer e tempo.


Tempo,havia lido sobre ele há pouco: e se a linearidade fosse uma ilusão? Se eu pudesse inventá-lo, o faria de forma cíclica, para que o renascimento constante de cada um pudesse ser atemporal.
 Mas pense: o que eu falara? Se já me perdera por completo nesse fio contínuo que é viver. E de repente uma náusea se apoderara de... por eu simplesmente não ser mais.
Venho do lúgubre peso de mim,embora vez ou outra,esqueço da morte: penso na infinitude dessa pequenez sóbria que somos todos nós. Penso também compreendê-la porque não vejo saída,é que não me alcanço sozinha.

domingo, 24 de julho de 2011

"Onde está eu?"



De súbito,tudo não passara de uma aflição vigiada pelo medo. Medo? Desconhecera essa palavra até então. Percorrera o que pouco lhe aprouvera da vida e dera-se conta de que nada restara: como pudera desvencilhar-se do prazer por tanto tempo?O tanto que deixara para trás devido ao seu hábito fresco de esconder-se da dor. Era preciso gritar,era preciso fôlego para o silêncio.


- Mas e se o real não existe? Talvez a verdade seja a ilusão da existência humana. - pensara ao perceber com pesar que seu cachorro a fitara com uma profunda compaixão ingênua.
 Ah,mas tudo não passara de um simples desatino,essa inconstância que fora nascer. Mansamente,então,voltara a deitar-se em sua cama preenchida pela sensação cômoda do desamparo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Instante



Em algum canto obscuro de si esconde-se o sorriso preenchido pela brevidade do mundo. Esconde-se também aquele adeus ressentido,que doera tanto ao ponto de que você não chorara mais. Em algum lugar soturno e denso recolhe-se o amor,esse que preenchera sua vida da mais doce plenitude. No sertão do seu olhar encontra-se a sua desatenção e ânsia de querer, e justo por querer tanto,nada acontecera. 


Ouça,consegue ouvir? Esse silêncio é o abismo de eu à procura de mim. Também é o seu desejo que já mantivera-se secundário por ter se restringido por completo: perdera a sobriedade da dura pena. 
Ouça-me pela última vez: o que digo é a centelha da chuva tempestiva,porque não temo a solidão de ser,apenas careço de mim.