segunda-feira, 28 de outubro de 2013

fragmentos

E esse vazio que me emerge por inteira,
nesse espaço preenchido pelo silêncio, é que sou.


Ser delicadamente

(des)figura do próprio (des)encontro.
Eu no tempo-contínuo que se afigurara
na certeza da solidão,
essa incompletude da vida.
E o tilitantar da horas
traz a certeza de que eu existo.
Enquanto a dor rompe o vazio
no mesmo lugar que se afigurara
a morte que se desfaz
pelos segundos.

O amor  resultara inútil
e não passara de um simples desatino.







terça-feira, 15 de outubro de 2013

"A vida apenas,sem mistificação"



Palavras, sou toda palavras. Mas elas são justamente as que me faltam no momento. Não sei escrever. Sinto que palavras resultam em uma confirmação de que o mundo - a vida, sobretudo - não faz sentido. 
A morte é uma condição injusta e não sei se sou corajosa como o Nietzsche ou o Ivan Karamázov para suportá-la até mesmo na miséria - aceitá-la acima de qualquer condição. Mas a questão principal é justamente essa: o homem é corajoso o suficiente para morrer? Existe esse desejo do fim ou seria apenas uma espécie de resignação dessa finitude (porque, afinal, nada se pode fazer para mudá-la)?
A arte justifica a vida, é tudo o que sei. Tento descrever através das palavras a experiência de se estar vivo: tudo que o me envolve, mas percebo que é inútil.




segunda-feira, 27 de maio de 2013

" Tomar consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido?"


Porque ela se fora e porque se deixara ir assim tão breve e súbita: ela se tornara saudade.  Porque tudo o que restara foram apenas memórias inconsoláveis: restos de pano, tecido e poesia espalhados no quarto- abrigo que sempre servira como refúgio. E eu? O que me tornara? Mas é que  eu sempre soube ser sem ela. Mas e depois? Porque o instante que escrevo é.  Meu anseio que ultrapassa essa folha de papel: o instante contínuo, esse fio frágil da vida. E repentinamente eu me dera conta de que essas palavras já são passado. Eu me tornara, eu fora - para onde? E ela? Ela que sempre fizera parte de mim. 

Porque eu me debruçara na janela e esperara por ---- acontece que eu não me alcanço. Minha vida não adquirira sentido até agora ,afinal, o que eu entendo do viver? Se eu permanecera nessa inconstância da credulidade; uma ideia  me assombrara: é que eu existo. Eu me é. É está sempre sendo. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

----------- Ponto final.

Por que aquele sofrimento não tinha fim? Porque se mortificara tanto ao ponto de que não aguentara mais: e pensara que o sentido da própria vida se encontrava nela mesma. E se dera conta arrebatada por uma surpresa, da mesma forma que observara a luz bruxuleante da lâmpada: se acometera da própria finitude.
E a solidão feria como duras farpas. E dissera assim, com o pouco que lhe aprouvera da dor: existir não é lógico.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ulisses



Ele a olhara timidamente, com certo espanto de notar que acabara de acordá-la com uma lambida. Ela abrira os olhos, despertara de um sono profundo. Fora então que sorrira para o seu cachorro. "Ele sempre tivera esse ar ingênuo de uma criatura que se doa por inteiro. Ele também sempre parecera um cão frágil que podia ser abandonado por qualquer pessoa." - pensara.  Ah, mas esse pensamento a feria como duras farpas.

 Ele que, nunca tivera consciência de si mesmo, mas  a despertara com uma alegria mansa e doce. Ele que, por apenas existir, preenchia a vida de amor.  Ele que, resignado à solidão de animal que fazia parte de um mundo ininteligível, abanara o rabo com a liberdade da vontade. 
Ela que o enxergara como um Outro. Ela que, naquela manhã, se dera conta de que ele sempre a amara.
Ele que, na condição ingênua de cachorro, soubera ser amado. 



"Esquecido agora, na ausência do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção ao dono. Ulisses o viu, voltou a cabeça e, tocado por sua aparência, verteu uma lágrima..." 
 - Odisséia



Ulysses Bôscolo

segunda-feira, 8 de abril de 2013

(in)completo


esse sufoco brando e contínuo. e sentira esse pulsar gradativo do peito - estava viva. e lembrara que tudo girara em torno do princípio do prazer:  sim, como ela poderia se abster de si mesma? fizera escolhas guiada pela justificativa cega do amor. mas que amor fora esse que se confundira todo em pranto? desse não- tempo, aceitara a condição de esperança. mas soubera desde o início que se enganara. 
 acontece que sempre pertencera à solidão. 

solidão de ser.
sol. 
sun.

here comes the sun.

mais uma vez a dura tarefa de esquecer. incompletude e vazio. 
palavra como quarta dimensão. palavra como consolo e abismo. 







domingo, 3 de março de 2013

Rabisco para Rubem Fonseca



E me apoiara na parede, pensara assim: é preciso ter compaixão, mas como é possível amar até mesmo a própria dor? E pensara em Virginia, na forma como ela  me deixara. Virginia - sempre calada, nunca pude compreendê-la. Mas havia Lúcia, que dissera que a felicidade é uma revolução-revólver assim como as letras de Lennon e McCartney. Havia também aquela atmosfera de dor que tanto sufocara Vera. E então, chegara o momento decisivo: por que me envolvera com tantas mulheres? Esse pranto velado é pesar por não conseguir amá-las? 

Haveria um momento em que todas as mulheres com que  me deitara iriam cuspir em meu rosto e repetir palavras pronunciadas em músicas de Chico Buarque. O silêncio de Virginia seria desvelado pelo amor próprio. Lúcia, como me olhara certa vez, iria notar que nascera para ser feliz. E Vera - talvez a mais ingênua - choraria por mim, mas no fundo saberia que eu nunca a fizera mulher.