domingo, 8 de março de 2015
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
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A vida a surpreendera. "Cada coisa tem um instante em que
ela é” – pensara.
E percebera a fragilidade que é ser, mas esse ser que está
no futuro. Concluíra, sentada no vagão, que a morte a espreitara desde que nascera. Mas parecia tão simples e
claro, e no entanto aquelas pessoas no vagão transitavam levando mochilas,
livros, absortas nos próprios problemas: elas não se davam conta de que também
são finitas? Isso a machucara profundamente, como uma farpa incrustada no pé.
Era doloroso, incômodo. O tempo que
passara esperando o ponto em que deveria saltar do trem, fora o suficiente para
aceitar o que penosamente descobrira: carecia de amor.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Distância
Ele se esquivara de mim e engatinhara até a parede, onde roçara as costas preguiçosamente. O gato agora se aconchegara perto do sofá e dormia um sono profundo. Enquanto isso, eu aprendera a apaziguar tão bem a vida: nada me atingia com susto. A mansidão da rotina era a certeza de que se podia viver sem ser feliz.
E o coração já não se apertava em espanto.
E o coração já não se apertava em espanto.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Relógio
Os olhos se mexiam de acordo com o movimento pendular do
relógio: tic-tac- tic-tac, barulho que amortecia o tédio e o vazio. Os ponteiros se afastavam e uma idéia a
consolava: ela existia. Movida pelo simples desejo de percorrer esses ponteiros,
se metamorfoseando em tic-tacs do relógio.
Tempo? Precisava inventar algo que ultrapassasse essa condição de
linearidade: no fundo sabia que o desejo fora apenas uma construção desse tempo
que a confundia por inteiro. O vazio, o tédio e o nojo rapidamente se
transformaram em indiferença. O que a
iludia com tanta perfeição? Era possível transcrever em palavras o que sentia? Mas
é que no fundo soubera, bem no fundo mesmo, que o desejo fora apenas um engano –
algo criado para preencher a falta de significado. Porque percebera que buscar
um sentido fora a própria incompreensão da dor.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
"Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança."
Os olhos cinza pousaram delicadamente sobre o objeto que ela observava durante a viagem. O objeto parecia se prolongar através da sombra que projetava na parede – esse objeto que pertencera sempre à ela. A melancolia que a espreitara agora se tornara uma espécie de culpa. Fardo da existência. E repentinamente um pensamento a acometera de sobriedade e dor: a velhice a aproximava lentamente da morte - essa condição que a acompanhara desde o nascimento. E pensara que assim que nascera, tivera que lidar continuamente com a própria finitude. Mas houvera um tempo em que acreditara ser infinita, lembrara docemente que a felicidade santificava a vida.
A náusea a mortificara novamente. E após fitar o objeto prolongado pela própria sombra, se dera conta do que a angustiara tanto: sonhos só existiam para preencher o lúgubre vazio da vida. Vida que se dissipava com o tempo.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
fragmentos
E esse vazio que me emerge por inteira,
nesse espaço preenchido pelo silêncio, é que sou.
Ser delicadamente
(des)figura do próprio (des)encontro.
Eu no tempo-contínuo que se afigurara
na certeza da solidão,
essa incompletude da vida.
E o tilitantar da horas
traz a certeza de que eu existo.
Enquanto a dor rompe o vazio
no mesmo lugar que se afigurara
a morte que se desfaz
pelos segundos.
O amor resultara inútil
e não passara de um simples desatino.
nesse espaço preenchido pelo silêncio, é que sou.
Ser delicadamente
(des)figura do próprio (des)encontro.
Eu no tempo-contínuo que se afigurara
na certeza da solidão,
essa incompletude da vida.
E o tilitantar da horas
traz a certeza de que eu existo.
Enquanto a dor rompe o vazio
no mesmo lugar que se afigurara
a morte que se desfaz
pelos segundos.
O amor resultara inútil
e não passara de um simples desatino.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
"A vida apenas,sem mistificação"
Palavras, sou toda palavras. Mas elas são justamente as que me faltam no momento. Não sei escrever. Sinto que palavras resultam em uma confirmação de que o mundo - a vida, sobretudo - não faz sentido.
A morte é uma condição injusta e não sei se sou corajosa como o Nietzsche ou o Ivan Karamázov para suportá-la até mesmo na miséria - aceitá-la acima de qualquer condição. Mas a questão principal é justamente essa: o homem é corajoso o suficiente para morrer? Existe esse desejo do fim ou seria apenas uma espécie de resignação dessa finitude (porque, afinal, nada se pode fazer para mudá-la)?
A arte justifica a vida, é tudo o que sei. Tento descrever através das palavras a experiência de se estar vivo: tudo que o me envolve, mas percebo que é inútil.
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