Escrevo advinda de um profundo instinto doloroso: me permite ser-você como fora no tempo-contínuo dilacerante.
É que me dói saber que você fora embora - me deixara sem descobrir o rudimentar sentido de ser?Admiro-a tanto,deve saber. Tudo que a compõe - seus trejeitos desalinhados e imperfeições distintas - carecem da dura realidade: como é possível estremecer de amor diante da poética crua e verdadeira.
Escrevo porque preciso dizer a dolorosa carência de ser: se aperceber no mundo é de tamanha lucidez que...já não sei me expressar.
Um pássaro pousara no meu ombro hoje e me lembrara do que dissera ontem - ou fora no tempo-contínuo? - sobre a doce plenitude da carência: me (des)faço por completo através de ti. Perguntara certa vez,altiva e colérica, sobre a iminência de um milagre. Eu ,atraída por tamanho desconforto, não soube responder, o silêncio me envolvera com sua sabedoria.
Escrevo,sobretudo,porque desde o início você despertara o amor - amor esse que se doa profundo e singelo sem perguntar o indizível. Lamento não tê-la conhecido,mas admito que o meu primitivo espanto de vida pulsa por sua prosa indecifrável.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
"E deixo que você seja. Isso lhe assusta?"
E me arrebatara o gélido sopro da vida. No meu coração se afigurara uma alegria primária,dessas que só se tem quando se morre: a vida por si só me assustara. E me dera conta de que o não-tempo é ilusório e a matéria é feita da brevidade de mim: mas quem sou?
Procurara em vão respostas,embora o que precisara intimamente sempre fora lágrimas de compaixão pela dor. Compaixão? Não. Seria apenas a vertigem do nascer e tempo.
Tempo,havia lido sobre ele há pouco: e se a linearidade fosse uma ilusão? Se eu pudesse inventá-lo, o faria de forma cíclica, para que o renascimento constante de cada um pudesse ser atemporal.
Mas pense: o que eu falara? Se já me perdera por completo nesse fio contínuo que é viver. E de repente uma náusea se apoderara de... por eu simplesmente não ser mais.
Venho do lúgubre peso de mim,embora vez ou outra,esqueço da morte: penso na infinitude dessa pequenez sóbria que somos todos nós. Penso também compreendê-la porque não vejo saída,é que não me alcanço sozinha.
domingo, 24 de julho de 2011
"Onde está eu?"
De súbito,tudo não passara de uma aflição vigiada pelo medo. Medo? Desconhecera essa palavra até então. Percorrera o que pouco lhe aprouvera da vida e dera-se conta de que nada restara: como pudera desvencilhar-se do prazer por tanto tempo?O tanto que deixara para trás devido ao seu hábito fresco de esconder-se da dor. Era preciso gritar,era preciso fôlego para o silêncio.
- Mas e se o real não existe? Talvez a verdade seja a ilusão da existência humana. - pensara ao perceber com pesar que seu cachorro a fitara com uma profunda compaixão ingênua.
Ah,mas tudo não passara de um simples desatino,essa inconstância que fora nascer. Mansamente,então,voltara a deitar-se em sua cama preenchida pela sensação cômoda do desamparo.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Instante
Em algum canto obscuro de si esconde-se o sorriso preenchido pela brevidade do mundo. Esconde-se também aquele adeus ressentido,que doera tanto ao ponto de que você não chorara mais. Em algum lugar soturno e denso recolhe-se o amor,esse que preenchera sua vida da mais doce plenitude. No sertão do seu olhar encontra-se a sua desatenção e ânsia de querer, e justo por querer tanto,nada acontecera.
Ouça,consegue ouvir? Esse silêncio é o abismo de eu à procura de mim. Também é o seu desejo que já mantivera-se secundário por ter se restringido por completo: perdera a sobriedade da dura pena.
Ouça-me pela última vez: o que digo é a centelha da chuva tempestiva,porque não temo a solidão de ser,apenas careço de mim.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Little Willow
"Não se doa dessa forma." - dissera o pássaro preto que viera cantar doces melodias no outono desbotado.
"Mas é que sou gente,alheia ao mundo e tudo me dói de tal forma,que hoje,apenas hoje,padeço um pouquinho: sei que voltarei a cantar como fizera para mim,doce pássaro.
Ainda não sei perdoar tampouco ser livre: é preciso um tanto de coragem para ser depois de ter. É um descuido grave.
O amanhã, por enquanto, não é consolo para mim - meu semblante de passividade se tornara a resignação do tempo. Agora estou a pensar como consegue voar com asas estremecidas pelo frio e umidade?"
"É que eu não me desfaço de amar." - e o pássaro se fora.
"Mas é que sou gente,alheia ao mundo e tudo me dói de tal forma,que hoje,apenas hoje,padeço um pouquinho: sei que voltarei a cantar como fizera para mim,doce pássaro.
Ainda não sei perdoar tampouco ser livre: é preciso um tanto de coragem para ser depois de ter. É um descuido grave.
O amanhã, por enquanto, não é consolo para mim - meu semblante de passividade se tornara a resignação do tempo. Agora estou a pensar como consegue voar com asas estremecidas pelo frio e umidade?"
"É que eu não me desfaço de amar." - e o pássaro se fora.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
"Me deram um nome e me alienaram de mim."
O que o distinguia de todos?
"Pois,onde está Deus ou o mistério maior diante de tamanha injustiça,ó pobre homem!Sua coléra envolve a dor do recém-nascido destinado a mendigar amor,sonhos e comida. Sua dor exala o lívido desespero da jovem que,por não ter aprendido a amar,entregara-se ao mundo. A noite cálida apenas se tornara mais uma vítima das dezenas de canções feitas para os trôpegos passos do andarilho desconhecido. Mas tu tens necessidade de mim e eu,egoísta e presunçoso,não compreendo tua angústia.
Não,não me sigas!Eu o desprezo, pobre homem.
E não tente enganar-me com seu anseio pelo híbrido toque das mãos de doces mulheres. Eu o desprezo, porque ao desprezar-te, engano o universo com sua falsa convicção. Onde mora o amor, senão nos braços de quem pode ofertá-lo?E ele não está em Deus,tampouco nos outros. Ele mora apenas em você.
Renego-te, para assim afirmar a mim diante de vós."
E o homem mantivera-se duro: não podia sonhar pois a ausência o envolvera como um sufoco brando e contínuo.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Matéria primária
É que isso desvatara por completo toda a unicidade que a envolvera: porque ser livre é de um peso que ofende e dói. Porque a vida,ainda singela e frágil,se revelara como um fio que carrega o universo.
O hiato fora apenas um sintoma de uma liberdade nunca antes pensada - e portanto ressaltara essa consciência de que nada além de si mesma,nada além do que plantara até agora,fora a realidade pura e material . E esse vazio?
"Dê-me a possibilidade de acreditar no não-concreto" - pedira já carente de si mesma. Mas ao poucos percebera ter pensado uma tolice e emudecera por completo.
Ainda estremecia de prazer e dor ao notar ser livre e sozinha.Ainda sobrara-lhe tempo para sofrer dessa pontada que desmitificara sua vida. Ainda sobrara lágrimas para se reconhecer.
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