segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Palavra
Esse instante que não é: enquanto escrevo o instante-já não é mais o mesmo. Ele mudara assim como eu.
Escrevo porque a incompletude advinda da liberdade - diria atemporal - me dói. Escrevo porque não vejo sentido em não ser: eu que fora e não sou mais, eu que renunciara a mim mesma no instante-já. Perceba: o instante-já é apenas uma classificação para um tempo que me ultrapassa e me dilacera. A condição de não-ser é dolorosa. Eu classifico o que me envolve: escolhi compreender o amor da maneira mais ingênua possível; eu que ainda não morri. Eu que me vejo perdida entre a compreensão aprofundada de mim e do amor não-correpondido do outro. Até quando o outro me é? E esse estremecimento de mim? Eu que existo com tamanha delicadeza - essa tristeza dos meus olhos, o que são eles? Sou-me.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Redenção
E esse anseio pela vida. Era isso, afinal, o que encontrara. O sentido da vida estava nela mesma. Como não percebera isso antes? E então, arrebatada por esse amor - sim amor por tudo que se manifestara em seu coração - lágrimas de enternecimento percorreram seu rosto. Fora nesse momento que dissera: - Essa realidade que me envolve é a minha glória íntima. Mas sou capaz de aceitar essa liberdade? Porque ser livre, do modo que sinto , é algo solitário.
A verdade que sempre a espantara fora essa: a compreensão sagrada de que a vida doía,mas nessa dor - justo nesse caos inevitável - a realidade mesma era redentora.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
"É um exílio sem solução.."
Mas é nesse instante torturante que tudo se afigurara para mim: nesse instante de dor que,entrecortada e ferida,sou.
Nesse instante me vejo entre a consciência de minha finitude e a condenação de um destino fatal. Como posso permanecer fiel à minha própria liberdade?Como posso viver consciente de que tudo o que me ampara e envolve - assim como o amor e a gravidade do mundo - será,um dia,negado a mim?
Estou perdida: a sobriedade do real me atingira por completo.
E esse esforço solitário unido a rigidez de meu rosto me condenam. Isso é o absurdo.
Nesse instante me vejo entre a consciência de minha finitude e a condenação de um destino fatal. Como posso permanecer fiel à minha própria liberdade?Como posso viver consciente de que tudo o que me ampara e envolve - assim como o amor e a gravidade do mundo - será,um dia,negado a mim?
Estou perdida: a sobriedade do real me atingira por completo.
E esse esforço solitário unido a rigidez de meu rosto me condenam. Isso é o absurdo.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
"Como é estranho,como é comovente que essa rigidez seja tão frágil. Nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la"
Os olhos marejados,a respiração pausada e a rigidez de seu rosto se modificaram em um instante torturante.
Ela nunca dissera de forma clara sobre sua dor íntima e aguda,vivera sempre encolhida e distante,em uma espécie de torpor incrédulo diante da vida. O que a afligia tanto? - eu pensara. Até que me tornara tão distante dela,que esse afastamento modificara a minha compreensão do mundo que a envolvera por tanto tempo.
Certa vez,estava sentada no sofá, ela veio como que atingida pela dura realidade de sua finitude. Dissera assim: - Esse meu silêncio...ele é a manifestação dessa náusea que se apodera de mim. Eu corro o risco da incerteza.
Eu,absorta em mim mesma,olho para ela e respondo: - Eu nem mesma sei quem sou,como posso ajudá-la? Sua melancolia é a mais doce liberdade que alguém pode ter, porque sua dor se transforma lentamente no que fora e aí então, a vida se dá por insaciável aridez.
Ela,admirada com minha resposta,enrubescera e timidamente retornara ao seu quarto.
Fora nesse momento que me arrebatara uma sensação que nunca sentira antes: por um instante,eu pude ver o mundo tal como era e sempre fora,a realidade pura e sufocante. O meu desejo se apoderara de mim por completo e me entreguei novamente à desorientação,essa mesma que me acompanhara desde o meu nascimento.
Ela nunca dissera de forma clara sobre sua dor íntima e aguda,vivera sempre encolhida e distante,em uma espécie de torpor incrédulo diante da vida. O que a afligia tanto? - eu pensara. Até que me tornara tão distante dela,que esse afastamento modificara a minha compreensão do mundo que a envolvera por tanto tempo.
Certa vez,estava sentada no sofá, ela veio como que atingida pela dura realidade de sua finitude. Dissera assim: - Esse meu silêncio...ele é a manifestação dessa náusea que se apodera de mim. Eu corro o risco da incerteza.
Eu,absorta em mim mesma,olho para ela e respondo: - Eu nem mesma sei quem sou,como posso ajudá-la? Sua melancolia é a mais doce liberdade que alguém pode ter, porque sua dor se transforma lentamente no que fora e aí então, a vida se dá por insaciável aridez.
Ela,admirada com minha resposta,enrubescera e timidamente retornara ao seu quarto.
Fora nesse momento que me arrebatara uma sensação que nunca sentira antes: por um instante,eu pude ver o mundo tal como era e sempre fora,a realidade pura e sufocante. O meu desejo se apoderara de mim por completo e me entreguei novamente à desorientação,essa mesma que me acompanhara desde o meu nascimento.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Diana
Como posso descrever essa ausência que me emerge por inteira - dentro do que sou,esse amor se transfigura na recordação de que você fora plena do mundo. Ainda me lembro - e como dói - que você me fitara com seus olhos mel e aí então uma lágrima percorrera o meu rosto: passiva e doce,se aconchegara timidamente ao meu lado como a dizer que me amava.
Ao admitir que hoje você me é saudade,estabeleço uma profunda comunhão entre solidão e meu pertencimento ao real. Porque essa carência advinda da dor é o sentimento simbólico de vida.
Ao abrir a porta, minha doce Diana abanara o rabo e me recepcionara com a saudade velada do tempo. Fora então que o orvalho da manhã me avisara: é hora de se despedir.
Ao admitir que hoje você me é saudade,estabeleço uma profunda comunhão entre solidão e meu pertencimento ao real. Porque essa carência advinda da dor é o sentimento simbólico de vida.
Ao abrir a porta, minha doce Diana abanara o rabo e me recepcionara com a saudade velada do tempo. Fora então que o orvalho da manhã me avisara: é hora de se despedir.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Carta à Macabéa
Escrevo advinda de um profundo instinto doloroso: me permite ser-você como fora no tempo-contínuo dilacerante.
É que me dói saber que você fora embora - me deixara sem descobrir o rudimentar sentido de ser?Admiro-a tanto,deve saber. Tudo que a compõe - seus trejeitos desalinhados e imperfeições distintas - carecem da dura realidade: como é possível estremecer de amor diante da poética crua e verdadeira.
Escrevo porque preciso dizer a dolorosa carência de ser: se aperceber no mundo é de tamanha lucidez que...já não sei me expressar.
Um pássaro pousara no meu ombro hoje e me lembrara do que dissera ontem - ou fora no tempo-contínuo? - sobre a doce plenitude da carência: me (des)faço por completo através de ti. Perguntara certa vez,altiva e colérica, sobre a iminência de um milagre. Eu ,atraída por tamanho desconforto, não soube responder, o silêncio me envolvera com sua sabedoria.
Escrevo,sobretudo,porque desde o início você despertara o amor - amor esse que se doa profundo e singelo sem perguntar o indizível. Lamento não tê-la conhecido,mas admito que o meu primitivo espanto de vida pulsa por sua prosa indecifrável.
É que me dói saber que você fora embora - me deixara sem descobrir o rudimentar sentido de ser?Admiro-a tanto,deve saber. Tudo que a compõe - seus trejeitos desalinhados e imperfeições distintas - carecem da dura realidade: como é possível estremecer de amor diante da poética crua e verdadeira.
Escrevo porque preciso dizer a dolorosa carência de ser: se aperceber no mundo é de tamanha lucidez que...já não sei me expressar.
Um pássaro pousara no meu ombro hoje e me lembrara do que dissera ontem - ou fora no tempo-contínuo? - sobre a doce plenitude da carência: me (des)faço por completo através de ti. Perguntara certa vez,altiva e colérica, sobre a iminência de um milagre. Eu ,atraída por tamanho desconforto, não soube responder, o silêncio me envolvera com sua sabedoria.
Escrevo,sobretudo,porque desde o início você despertara o amor - amor esse que se doa profundo e singelo sem perguntar o indizível. Lamento não tê-la conhecido,mas admito que o meu primitivo espanto de vida pulsa por sua prosa indecifrável.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
"E deixo que você seja. Isso lhe assusta?"
E me arrebatara o gélido sopro da vida. No meu coração se afigurara uma alegria primária,dessas que só se tem quando se morre: a vida por si só me assustara. E me dera conta de que o não-tempo é ilusório e a matéria é feita da brevidade de mim: mas quem sou?
Procurara em vão respostas,embora o que precisara intimamente sempre fora lágrimas de compaixão pela dor. Compaixão? Não. Seria apenas a vertigem do nascer e tempo.
Tempo,havia lido sobre ele há pouco: e se a linearidade fosse uma ilusão? Se eu pudesse inventá-lo, o faria de forma cíclica, para que o renascimento constante de cada um pudesse ser atemporal.
Mas pense: o que eu falara? Se já me perdera por completo nesse fio contínuo que é viver. E de repente uma náusea se apoderara de... por eu simplesmente não ser mais.
Venho do lúgubre peso de mim,embora vez ou outra,esqueço da morte: penso na infinitude dessa pequenez sóbria que somos todos nós. Penso também compreendê-la porque não vejo saída,é que não me alcanço sozinha.
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