domingo, 23 de dezembro de 2012

"Eu, viva e tremeluzente como os instantes"



Esboçara esse sorriso diante da lembrança que tivera: o desejo de ser a ultrapassara. Ela, que nunca fora.  O seu primitivo pulsara por vida – seria essa, afinal, a palavra que tanto procurara: liberdade? E dissera assim, como se tivesse cometido um crime: Sou livre e só. E  então o medo lhe atingira porque descobrira com espanto como é ser  mulher.  
Durante parte de sua vida nunca adquirira consciência de si mesma, era como se vivesse em uma espécie de hiato. O que a distinguia do cachorro que viera recepcioná-la com um amor ingênuo? Pensara assim:  Ele não sabe que um dia vai morrer. Era isso então. E por um breve instante, ela intimamente invejara aquele animal.   

E os dias se estendiam vagarosamente: pareciam intermináveis. Perguntara a si mesma: e depois? O que vem depois? Mas aos poucos uma ideia lhe sobressaltara: o inesperado a consolava.  Porque se sentira frágil e pequena, tudo a feria. Ela que quisera tanto, como se pudesse se apoderar de tudo que a envolvia.  Como se de repente a realidade pudesse ser expressa em palavras – mas sabia que era inútil. Tudo não passara de um sonho, afinal.  

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Velado



O que sucedera? Porque escrevo como se essa fosse minha última tentativa. 
Vou para - eu que, na tentativa frustrada de ser amada, feri a mim mesma. 
Mas eu sei, eu sei, eu sei que me quero por inteira. Eu que fora plena algum dia. 
Mas é preciso ultrapassar essa condição de dor, porque a liberdade se dispõe no mundo. Eu que escrevo apenas porque quero ser sem medo. E me fitara assim  porque  eu  lhe dera um nome, porque eu o inventara.  
Você, que com sua natureza tão ingênua, percebera o meu olhar pousar alheio na placidez da sala de estar. E eu, que o enxergo senão por mim mesma, você que me tem.  

"The Italian Model" -  Mabel Alvarez

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Palavra


Esse instante que  não é: enquanto escrevo o instante-já não é mais o mesmo. Ele mudara assim como eu. 
Escrevo porque a incompletude advinda da liberdade - diria atemporal - me dói. Escrevo porque não vejo sentido em não ser: eu que fora e não sou mais, eu que renunciara a mim mesma no instante-já.  Perceba: o instante-já é apenas uma classificação para um tempo que me ultrapassa e me dilacera. A condição de não-ser é dolorosa. Eu  classifico o que me envolve: escolhi compreender o amor da maneira mais ingênua possível; eu que ainda não morri.  Eu que me vejo perdida entre a compreensão aprofundada de mim e do amor não-correpondido do outro.  Até quando o outro me é?  E esse estremecimento de mim? Eu que existo com tamanha delicadeza - essa tristeza dos meus olhos, o que são eles?  Sou-me. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Redenção


E esse anseio pela vida. Era isso, afinal, o que encontrara. O sentido da vida estava nela mesma. Como não percebera isso antes? E então, arrebatada por esse amor - sim amor por tudo que se manifestara em seu coração   - lágrimas de enternecimento percorreram seu rosto. Fora nesse momento que dissera:  - Essa realidade que me envolve é a minha glória íntima. Mas sou capaz de aceitar essa liberdade? Porque ser livre, do modo que sinto , é algo solitário.  
A verdade que sempre a espantara fora essa: a compreensão sagrada de que a vida doía,mas nessa dor - justo nesse caos inevitável - a realidade mesma era redentora. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"É um exílio sem solução.."

Mas é nesse instante torturante que tudo se afigurara para mim: nesse instante de dor que,entrecortada e ferida,sou. 
 Nesse instante me vejo entre a consciência de minha finitude e a condenação de um destino fatal. Como posso permanecer fiel à minha própria liberdade?Como posso viver consciente de que tudo o que me ampara e envolve - assim como o amor e a gravidade do mundo - será,um dia,negado a mim?
Estou perdida: a sobriedade do real me atingira por completo. 
E esse esforço solitário unido a rigidez de meu rosto me condenam. Isso é o absurdo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Como é estranho,como é comovente que essa rigidez seja tão frágil. Nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la"

Os olhos marejados,a respiração pausada e a rigidez de seu rosto se modificaram em um instante torturante. 
Ela nunca dissera de forma clara sobre sua dor íntima e aguda,vivera sempre encolhida e distante,em uma espécie de torpor incrédulo diante da vida. O que a afligia tanto? - eu pensara. Até que me tornara tão distante dela,que esse afastamento modificara a  minha compreensão do mundo que a envolvera por tanto tempo.


Certa vez,estava sentada no sofá, ela veio como que atingida pela dura realidade de sua finitude. Dissera assim:  - Esse meu silêncio...ele é a manifestação dessa náusea que se apodera de mim. Eu corro o risco da incerteza.
Eu,absorta em mim mesma,olho para ela e respondo: - Eu nem mesma sei quem sou,como posso ajudá-la? Sua melancolia é a mais doce liberdade que alguém pode ter, porque sua dor se transforma lentamente no que fora e aí então, a vida se dá por insaciável aridez.
Ela,admirada com minha resposta,enrubescera e timidamente retornara ao seu quarto.


Fora nesse momento que me arrebatara uma sensação que nunca sentira antes: por um instante,eu pude ver o mundo tal como era e sempre fora,a realidade pura e sufocante. O meu desejo se apoderara de mim por completo e me entreguei novamente à desorientação,essa  mesma que me acompanhara desde o meu nascimento.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Diana

Como posso descrever essa ausência que me emerge por inteira - dentro do que sou,esse amor se transfigura na recordação de que você fora plena do mundo. Ainda me lembro - e como dói - que você me fitara com seus olhos mel e aí então uma lágrima percorrera o meu rosto: passiva e doce,se aconchegara timidamente ao meu lado como a dizer que me amava.
Ao admitir que hoje você me é saudade,estabeleço uma profunda comunhão entre solidão e meu  pertencimento ao real. Porque essa carência advinda da dor é o sentimento simbólico de vida. 


Ao abrir a porta, minha doce Diana abanara o rabo e me recepcionara com a saudade velada do tempo. Fora então que o orvalho da manhã me avisara: é hora de se despedir.