segunda-feira, 8 de abril de 2013
(in)completo
esse sufoco brando e contínuo. e sentira esse pulsar gradativo do peito - estava viva. e lembrara que tudo girara em torno do princípio do prazer: sim, como ela poderia se abster de si mesma? fizera escolhas guiada pela justificativa cega do amor. mas que amor fora esse que se confundira todo em pranto? desse não- tempo, aceitara a condição de esperança. mas soubera desde o início que se enganara.
acontece que sempre pertencera à solidão.
solidão de ser.
sol.
sun.
here comes the sun.
mais uma vez a dura tarefa de esquecer. incompletude e vazio.
palavra como quarta dimensão. palavra como consolo e abismo.
domingo, 3 de março de 2013
Rabisco para Rubem Fonseca
E me apoiara na parede, pensara assim: é preciso ter compaixão, mas como é
possível amar até mesmo a própria dor? E pensara em Virginia, na forma como
ela me deixara. Virginia - sempre
calada, nunca pude compreendê-la. Mas havia Lúcia, que dissera que a felicidade
é uma revolução-revólver assim como as letras de Lennon e McCartney. Havia
também aquela atmosfera de dor que tanto sufocara Vera. E então, chegara o
momento decisivo: por que me envolvera com tantas mulheres? Esse pranto velado é
pesar por não conseguir amá-las?
Haveria um momento em que todas as mulheres
com que me deitara iriam cuspir em meu
rosto e repetir palavras pronunciadas em músicas de Chico Buarque. O silêncio
de Virginia seria desvelado pelo amor próprio. Lúcia, como me olhara certa vez,
iria notar que nascera para ser feliz. E Vera - talvez a mais ingênua - choraria
por mim, mas no fundo saberia que eu nunca a fizera mulher.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Minha Abbey Road
Às vezes quando me vejo descrente do amor, ouço Beatles.
Quando me vejo sem esperanças e perdida em um mundo que carece de si mesmo, ouço Beatles.
Quando olho para o céu e percebo que a liberdade é uma utopia, ouço Beatles.
Quando escrevo em linhas redondas e sinto necessidade de palavras, ouço Beatles.
Quando meu coração é tão pequeno para o silêncio, ouço Beatles.
Quando o pássaro preto pousa na minha janela cantando sobre o passado, ouço Beatles.
Quando o sorriso é velado pela dor, ouço Beatles.
Quando o sorriso é apenas sorriso, ouço Beatles.
Quando a lembrança é uma despedida de saudade, ouço Beatles.
Quando meu coração transborda de amor, ouço Beatles.
Quando percebo que não pertenço a mim mesma porque o tempo é apenas uma renúncia, ouço Beatles.
Quando alcanço o profundo de mim, ouço Beatles.
Quando a arte justifica a vida, ouço Beatles.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Frágil
Porque havia o
perder-se. Era tão natural quanto
julgara ser o amor? E escrevera assim: “Amor”. E repetira Esta palavra uma centena de vezes. É que através do símbolo ela poderia atingir o
simbolizado – e era Deus? Ela sabia,
então. Era preciso, primeiramente,
entregar-se a si mesma, para depois, depois...Dispor a si própria era o passo
que faltara. Porque o mundo se mostrara pleno após esse reconhecimento. Ela não
podia acreditar em um Amor injusto: sofrer era natural?
Certa vez ela se entregara toda a outra pessoa
sem nem se dar conta de si mesma, mas se ferira. Fora então que lera em algum lugar que o
esquecimento era a melhor forma de vingança e também o melhor perdão. Queria dizer assim, com certa compaixão
justificada na indiferença: eu perdôo. Mas
mentira.
Ele, que mostrara a ela o que era viver. Com que direito ele a fizera amá-lo? Mas esse amor era diferente do Amor. E então se precipitara em um suspiro silencioso, quase palpável.
Ele, que mostrara a ela o que era viver. Com que direito ele a fizera amá-lo? Mas esse amor era diferente do Amor. E então se precipitara em um suspiro silencioso, quase palpável.
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| Potty Lazzarotto |
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Para: Clarice,
Mas a verdade que sempre a espantara fora essa: a realidade sôfrega da vida. Dissera certa vez, colérica e inconsolável, que podia classificar tudo que a envolvia. Mas sabia que a esperança era algo perigoso. Intimamente, através da profunda compreensão da dor, ela não permitia que o desejo se apoderasse de si mesma. Cabia a si própria transpor limites. Por tanto querer,nada acontecera. E pensara assim: " esse profundo de mim - o que é?". É preciso denominar, como classificar tamanha incompreensão? Ela que nunca tivera consciência de quem fora ou mesmo se tornara.
Mas então, como que atingida por uma espécie de pensamento - pensamento aprisionado em seu inteiror, primitivo e ingênuo - essa pontada que desmitificara o mundo: se dera conta de que a beleza consistia no sofrimento.
Ou melhor: a beleza fora criada apesar de.
domingo, 23 de dezembro de 2012
"Eu, viva e tremeluzente como os instantes"
Esboçara esse sorriso diante da lembrança que tivera: o
desejo de ser a ultrapassara. Ela, que nunca fora. O seu primitivo pulsara por vida – seria
essa, afinal, a palavra que tanto procurara: liberdade? E dissera assim, como
se tivesse cometido um crime: Sou livre e só. E
então o medo lhe atingira porque descobrira com espanto como é ser mulher.
Durante parte de sua vida nunca adquirira consciência de si mesma, era
como se vivesse em uma espécie de hiato. O que a distinguia do cachorro que
viera recepcioná-la com um amor ingênuo? Pensara assim: Ele não sabe que um dia vai morrer. Era isso
então. E por um breve instante, ela intimamente invejara aquele animal.
E os dias se estendiam vagarosamente: pareciam
intermináveis. Perguntara a si mesma: e depois? O que vem depois? Mas aos
poucos uma ideia lhe sobressaltara: o inesperado a consolava. Porque se sentira frágil e pequena, tudo a
feria. Ela que quisera tanto, como se pudesse se apoderar de tudo que a envolvia. Como se de repente a realidade pudesse ser
expressa em palavras – mas sabia que era inútil. Tudo não passara de um sonho,
afinal.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Velado
O que sucedera? Porque escrevo como se essa fosse minha última tentativa.
Vou para - eu que, na tentativa frustrada de ser amada, feri a mim mesma.
Mas eu sei, eu sei, eu sei que me quero por inteira. Eu que fora plena algum dia.
Mas é preciso ultrapassar essa condição de dor, porque a liberdade se dispõe no mundo. Eu que escrevo apenas porque quero ser sem medo. E me fitara assim porque eu lhe dera um nome, porque eu o inventara.
Você, que com sua natureza tão ingênua, percebera o meu olhar pousar alheio na placidez da sala de estar. E eu, que o enxergo senão por mim mesma, você que me tem.
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| "The Italian Model" - Mabel Alvarez |
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