domingo, 15 de março de 2015

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O que ficou  na  minha memória foi : aqueles olhos tristes, envoltos por linhas de expressão, que me fitavam longamente como a me dizer que eu existia - eu existo. 
 Eu pertenço só a mim e essa solidão havia se tornado uma espécie de liberdade.

Bastou-lhe um intervalo e ele reconheceu que eu nada representava em sua vida. 
Vazio.
Foi então que eu percebi que só na sequência dos agoras é que eu existo. 

domingo, 8 de março de 2015

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Fui ao encontro de mim no momento em que você me abandonou. Uma parte de mim, que julgava conhecer, se fora também. E nesse tempo – inércia da vida – eu dolorosamente me (re)descobri.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

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A vida a surpreendera. "Cada coisa tem um instante em que ela é” – pensara.
 E percebera a fragilidade que é ser, mas esse ser que está no futuro. Concluíra, sentada no vagão, que a morte a espreitara desde que nascera. Mas parecia tão simples e claro, e no entanto aquelas pessoas no vagão transitavam levando mochilas, livros, absortas nos próprios problemas: elas não se davam conta de que também são finitas? Isso a machucara profundamente, como uma farpa incrustada no pé. Era doloroso, incômodo.  O tempo que passara esperando o ponto em que deveria saltar do trem, fora o suficiente para aceitar o que penosamente descobrira: carecia de amor.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Distância

Ele se esquivara de mim e engatinhara até a parede, onde roçara as costas preguiçosamente. O gato agora se aconchegara perto do sofá e dormia um sono profundo. Enquanto isso, eu aprendera a apaziguar tão bem a vida: nada me atingia com susto. A mansidão da rotina era a certeza de que se podia viver sem ser feliz.
 E o coração já não se apertava em espanto.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Relógio


Os olhos se mexiam de acordo com o movimento pendular do relógio: tic-tac- tic-tac, barulho que amortecia o tédio e o vazio.  Os ponteiros se afastavam e uma idéia a consolava: ela existia. Movida pelo simples desejo de percorrer esses ponteiros, se metamorfoseando em tic-tacs do relógio.  Tempo? Precisava inventar algo que ultrapassasse essa condição de linearidade: no fundo sabia que o desejo fora apenas uma construção desse tempo que a confundia por inteiro. O vazio, o tédio e o nojo rapidamente se transformaram em indiferença.  O que a iludia com tanta perfeição? Era possível transcrever em palavras o que sentia? Mas é que no fundo soubera, bem no fundo mesmo, que o desejo fora apenas um engano – algo criado para preencher a falta de significado. Porque percebera que buscar um sentido fora a própria incompreensão da dor. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

"Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança."


Os olhos cinza pousaram delicadamente sobre o objeto que ela observava durante a viagem. O objeto parecia se prolongar através da sombra que projetava na parede –  esse objeto que pertencera sempre à ela.  A melancolia que  a espreitara agora se tornara uma espécie de culpa. Fardo da existência.  E repentinamente um pensamento a acometera de sobriedade e dor:  a velhice a aproximava lentamente da morte - essa condição que a acompanhara desde o nascimento. E pensara que assim que nascera, tivera que lidar continuamente com a própria finitude.  Mas houvera um tempo em que acreditara ser infinita, lembrara docemente que a felicidade santificava a vida. 
A náusea a mortificara novamente. E após fitar o objeto prolongado pela própria sombra, se dera conta do que a angustiara tanto:  sonhos só existiam para preencher o lúgubre vazio da vida.  Vida que se dissipava com o tempo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

fragmentos

E esse vazio que me emerge por inteira,
nesse espaço preenchido pelo silêncio, é que sou.


Ser delicadamente

(des)figura do próprio (des)encontro.
Eu no tempo-contínuo que se afigurara
na certeza da solidão,
essa incompletude da vida.
E o tilitantar da horas
traz a certeza de que eu existo.
Enquanto a dor rompe o vazio
no mesmo lugar que se afigurara
a morte que se desfaz
pelos segundos.

O amor  resultara inútil
e não passara de um simples desatino.