domingo, 24 de julho de 2011

"Onde está eu?"



De súbito,tudo não passara de uma aflição vigiada pelo medo. Medo? Desconhecera essa palavra até então. Percorrera o que pouco lhe aprouvera da vida e dera-se conta de que nada restara: como pudera desvencilhar-se do prazer por tanto tempo?O tanto que deixara para trás devido ao seu hábito fresco de esconder-se da dor. Era preciso gritar,era preciso fôlego para o silêncio.


- Mas e se o real não existe? Talvez a verdade seja a ilusão da existência humana. - pensara ao perceber com pesar que seu cachorro a fitara com uma profunda compaixão ingênua.
 Ah,mas tudo não passara de um simples desatino,essa inconstância que fora nascer. Mansamente,então,voltara a deitar-se em sua cama preenchida pela sensação cômoda do desamparo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Instante



Em algum canto obscuro de si esconde-se o sorriso preenchido pela brevidade do mundo. Esconde-se também aquele adeus ressentido,que doera tanto ao ponto de que você não chorara mais. Em algum lugar soturno e denso recolhe-se o amor,esse que preenchera sua vida da mais doce plenitude. No sertão do seu olhar encontra-se a sua desatenção e ânsia de querer, e justo por querer tanto,nada acontecera. 


Ouça,consegue ouvir? Esse silêncio é o abismo de eu à procura de mim. Também é o seu desejo que já mantivera-se secundário por ter se restringido por completo: perdera a sobriedade da dura pena. 
Ouça-me pela última vez: o que digo é a centelha da chuva tempestiva,porque não temo a solidão de ser,apenas careço de mim. 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Little Willow

"Não se doa dessa forma." - dissera o pássaro preto que viera cantar doces melodias no outono desbotado.
"Mas é que sou gente,alheia ao mundo e tudo me dói de tal forma,que hoje,apenas hoje,padeço um pouquinho: sei que voltarei a cantar como fizera para mim,doce pássaro.
Ainda não sei perdoar tampouco ser livre: é preciso um tanto de coragem para ser depois de ter. É um descuido grave.
O amanhã, por enquanto, não é consolo para mim - meu semblante de passividade se tornara a resignação do tempo. Agora estou a pensar como consegue voar com asas estremecidas pelo frio e umidade?"

"É que eu não me desfaço de amar." - e o pássaro se fora.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

"Me deram um nome e me alienaram de mim."



O que o distinguia de todos?


"Pois,onde está Deus ou o mistério maior diante de tamanha injustiça,ó pobre homem!Sua coléra envolve a dor do recém-nascido destinado a mendigar amor,sonhos e comida. Sua dor exala o lívido desespero da jovem que,por não ter aprendido a amar,entregara-se ao mundo. A noite cálida apenas se tornara mais uma vítima das dezenas de canções feitas para os trôpegos passos do andarilho desconhecido. Mas tu tens necessidade de mim e eu,egoísta e presunçoso,não compreendo tua angústia.
Não,não me sigas!Eu o desprezo, pobre homem.
E não tente enganar-me com seu anseio pelo híbrido toque das mãos de doces mulheres. Eu o desprezo, porque ao desprezar-te, engano o universo com sua falsa convicção. Onde mora o amor, senão nos braços de quem pode ofertá-lo?E ele não está em Deus,tampouco nos outros. Ele mora apenas em você.
Renego-te, para assim afirmar a mim diante de vós."


E o homem mantivera-se duro: não podia sonhar pois a ausência o envolvera como um sufoco brando e contínuo.



segunda-feira, 30 de maio de 2011

Matéria primária



É que isso desvatara por completo toda a unicidade que a envolvera: porque ser livre é de um peso que ofende e dói. Porque a vida,ainda singela e frágil,se revelara como um fio que carrega o universo. 
O hiato fora apenas um sintoma de uma liberdade nunca antes pensada - e portanto ressaltara essa consciência de que nada além de si mesma,nada além do que plantara até agora,fora a realidade pura e material . E esse vazio? 
"Dê-me a possibilidade de acreditar no não-concreto" - pedira já carente de si mesma. Mas ao poucos percebera ter pensado uma tolice e emudecera por completo. 
Ainda estremecia de prazer e dor ao notar ser livre e sozinha.Ainda sobrara-lhe tempo para sofrer dessa pontada que desmitificara sua vida. Ainda sobrara lágrimas para se reconhecer.




terça-feira, 12 de abril de 2011

"José, para onde?"

Ouça-me bem: há pouco estivera repleta de ausências,dessas que se espalham lentamente e só se sabe de sua existência depois que uma espécie de pontada,unida a uma fadiga da vida, lhe alcança. O silêncio,esse vazio intransponível e mítico, me avisara disso tudo.
- Você se dói?- Foi a primeira pergunta que Ele me fizera, O próprio me respondera com sua quietude infinita.


E o seu estranho incômodo gritara para desvencilhar-se de um todo aspirado pelo não-concreto.
"Pois sou Dante ao abrir a porta do purgatório e perguntar a si mesmo se Deus é invenção da humanidade." - dissera assim,sem ter certeza do que fora.
E me respondera: "A sua descrença se limita na falta do próprio perdão."
A ausência,então,só aumentara.

domingo, 13 de março de 2011

"No entanto tua fome é grande como a tua alma que apequenaste à altura do outro."



É que pensara que assim como sua existência até agora não fizera sentido algum - talvez,talvez se pudesse renunciar a si mesma, o alívio contido contornasse seu coração. Mas se? Ah, acontece que acordara assim,dessas vezes  em que o perder-se é o perdão da dor. Bem no fundo soubera que nada a consolara como a obediência de viver, essa renúncia que aos poucos afrouxara seus sentidos e olhos; esse cômodo sopro que sufocava a crença - e não ter algo é de um desconsolo passivo e muito triste. 
Às vezes  a compreensão de sua dor a ofendia - era isso,pois, duras farpas que a machucavam na sombra? 
E também nada pedira por estar ausente: porque nada esperava. 


E sussurrara assim: - Agradeço por receber o que desconheço diariamente. Essa estranha ignorância que me preenche é triste como eu. Eu venho de mim, a dor vem da dor, a carência vem...da carência de ser? E amor vem do amor,assim como o opaco vem da luz?Mas de uma coisa eu sei: o  medo vem da descrença.






"Pedem-me pouco, pedem-me quase nada. O terrível é que eu tenho muito para dar e tenho que engolir esse muito e ainda por cima dizer com delicadeza : obrigada por receberem de mim um pouquinho de mim."   (Clarice Lispector)