terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Frágil


Porque havia o perder-se.  Era tão natural quanto julgara ser o amor? E escrevera assim: “Amor”.  E repetira Esta palavra uma centena de vezes.  É que através do símbolo ela poderia atingir o simbolizado – e era Deus?  Ela sabia, então.  Era preciso, primeiramente, entregar-se a si mesma, para depois, depois...Dispor a si própria era o passo que faltara. Porque o mundo se mostrara pleno após esse reconhecimento. Ela não podia acreditar em um Amor injusto: sofrer era natural? 
 Certa vez ela se entregara toda a outra pessoa sem nem se dar conta de si mesma, mas se ferira.  Fora então que lera em algum lugar que o esquecimento era a melhor forma de vingança e também o melhor perdão. Queria dizer assim, com certa compaixão justificada na indiferença: eu perdôo.  Mas mentira.
 Ele, que mostrara a ela o que era viver. Com que direito ele a fizera amá-lo? Mas esse amor era diferente do Amor.  E então se precipitara em um suspiro silencioso, quase palpável. 


Potty Lazzarotto


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Para: Clarice,

Mas a verdade que sempre a espantara fora essa: a realidade sôfrega da vida. Dissera certa vez, colérica e inconsolável, que podia classificar tudo que a envolvia. Mas sabia que a esperança era algo perigoso. Intimamente, através da profunda compreensão da dor, ela não permitia que o desejo se apoderasse de si mesma. Cabia a si própria transpor limites. Por tanto querer,nada acontecera. E pensara assim: " esse profundo de mim - o que é?".  É preciso denominar, como classificar tamanha incompreensão? Ela que nunca tivera consciência de quem fora ou mesmo se tornara.  
Mas então, como que atingida por uma espécie de pensamento - pensamento aprisionado em seu inteiror, primitivo e ingênuo - essa pontada que desmitificara o mundo: se dera conta de que a beleza consistia no sofrimento. 
Ou melhor: a beleza fora criada apesar de.

Apesar do silêncio. Apesar da solidão. 



domingo, 23 de dezembro de 2012

"Eu, viva e tremeluzente como os instantes"



Esboçara esse sorriso diante da lembrança que tivera: o desejo de ser a ultrapassara. Ela, que nunca fora.  O seu primitivo pulsara por vida – seria essa, afinal, a palavra que tanto procurara: liberdade? E dissera assim, como se tivesse cometido um crime: Sou livre e só. E  então o medo lhe atingira porque descobrira com espanto como é ser  mulher.  
Durante parte de sua vida nunca adquirira consciência de si mesma, era como se vivesse em uma espécie de hiato. O que a distinguia do cachorro que viera recepcioná-la com um amor ingênuo? Pensara assim:  Ele não sabe que um dia vai morrer. Era isso então. E por um breve instante, ela intimamente invejara aquele animal.   

E os dias se estendiam vagarosamente: pareciam intermináveis. Perguntara a si mesma: e depois? O que vem depois? Mas aos poucos uma ideia lhe sobressaltara: o inesperado a consolava.  Porque se sentira frágil e pequena, tudo a feria. Ela que quisera tanto, como se pudesse se apoderar de tudo que a envolvia.  Como se de repente a realidade pudesse ser expressa em palavras – mas sabia que era inútil. Tudo não passara de um sonho, afinal.  

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Velado



O que sucedera? Porque escrevo como se essa fosse minha última tentativa. 
Vou para - eu que, na tentativa frustrada de ser amada, feri a mim mesma. 
Mas eu sei, eu sei, eu sei que me quero por inteira. Eu que fora plena algum dia. 
Mas é preciso ultrapassar essa condição de dor, porque a liberdade se dispõe no mundo. Eu que escrevo apenas porque quero ser sem medo. E me fitara assim  porque  eu  lhe dera um nome, porque eu o inventara.  
Você, que com sua natureza tão ingênua, percebera o meu olhar pousar alheio na placidez da sala de estar. E eu, que o enxergo senão por mim mesma, você que me tem.  

"The Italian Model" -  Mabel Alvarez

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Palavra


Esse instante que  não é: enquanto escrevo o instante-já não é mais o mesmo. Ele mudara assim como eu. 
Escrevo porque a incompletude advinda da liberdade - diria atemporal - me dói. Escrevo porque não vejo sentido em não ser: eu que fora e não sou mais, eu que renunciara a mim mesma no instante-já.  Perceba: o instante-já é apenas uma classificação para um tempo que me ultrapassa e me dilacera. A condição de não-ser é dolorosa. Eu  classifico o que me envolve: escolhi compreender o amor da maneira mais ingênua possível; eu que ainda não morri.  Eu que me vejo perdida entre a compreensão aprofundada de mim e do amor não-correpondido do outro.  Até quando o outro me é?  E esse estremecimento de mim? Eu que existo com tamanha delicadeza - essa tristeza dos meus olhos, o que são eles?  Sou-me. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Redenção


E esse anseio pela vida. Era isso, afinal, o que encontrara. O sentido da vida estava nela mesma. Como não percebera isso antes? E então, arrebatada por esse amor - sim amor por tudo que se manifestara em seu coração   - lágrimas de enternecimento percorreram seu rosto. Fora nesse momento que dissera:  - Essa realidade que me envolve é a minha glória íntima. Mas sou capaz de aceitar essa liberdade? Porque ser livre, do modo que sinto , é algo solitário.  
A verdade que sempre a espantara fora essa: a compreensão sagrada de que a vida doía,mas nessa dor - justo nesse caos inevitável - a realidade mesma era redentora. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"É um exílio sem solução.."

Mas é nesse instante torturante que tudo se afigurara para mim: nesse instante de dor que,entrecortada e ferida,sou. 
 Nesse instante me vejo entre a consciência de minha finitude e a condenação de um destino fatal. Como posso permanecer fiel à minha própria liberdade?Como posso viver consciente de que tudo o que me ampara e envolve - assim como o amor e a gravidade do mundo - será,um dia,negado a mim?
Estou perdida: a sobriedade do real me atingira por completo. 
E esse esforço solitário unido a rigidez de meu rosto me condenam. Isso é o absurdo.