terça-feira, 14 de maio de 2013

----------- Ponto final.

Por que aquele sofrimento não tinha fim? Porque se mortificara tanto ao ponto de que não aguentara mais: e pensara que o sentido da própria vida se encontrava nela mesma. E se dera conta arrebatada por uma surpresa, da mesma forma que observara a luz bruxuleante da lâmpada: se acometera da própria finitude.
E a solidão feria como duras farpas. E dissera assim, com o pouco que lhe aprouvera da dor: existir não é lógico.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ulisses



Ele a olhara timidamente, com certo espanto de notar que acabara de acordá-la com uma lambida. Ela abrira os olhos, despertara de um sono profundo. Fora então que sorrira para o seu cachorro. "Ele sempre tivera esse ar ingênuo de uma criatura que se doa por inteiro. Ele também sempre parecera um cão frágil que podia ser abandonado por qualquer pessoa." - pensara.  Ah, mas esse pensamento a feria como duras farpas.

 Ele que, nunca tivera consciência de si mesmo, mas  a despertara com uma alegria mansa e doce. Ele que, por apenas existir, preenchia a vida de amor.  Ele que, resignado à solidão de animal que fazia parte de um mundo ininteligível, abanara o rabo com a liberdade da vontade. 
Ela que o enxergara como um Outro. Ela que, naquela manhã, se dera conta de que ele sempre a amara.
Ele que, na condição ingênua de cachorro, soubera ser amado. 



"Esquecido agora, na ausência do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção ao dono. Ulisses o viu, voltou a cabeça e, tocado por sua aparência, verteu uma lágrima..." 
 - Odisséia



Ulysses Bôscolo

segunda-feira, 8 de abril de 2013

(in)completo


esse sufoco brando e contínuo. e sentira esse pulsar gradativo do peito - estava viva. e lembrara que tudo girara em torno do princípio do prazer:  sim, como ela poderia se abster de si mesma? fizera escolhas guiada pela justificativa cega do amor. mas que amor fora esse que se confundira todo em pranto? desse não- tempo, aceitara a condição de esperança. mas soubera desde o início que se enganara. 
 acontece que sempre pertencera à solidão. 

solidão de ser.
sol. 
sun.

here comes the sun.

mais uma vez a dura tarefa de esquecer. incompletude e vazio. 
palavra como quarta dimensão. palavra como consolo e abismo. 







domingo, 3 de março de 2013

Rabisco para Rubem Fonseca



E me apoiara na parede, pensara assim: é preciso ter compaixão, mas como é possível amar até mesmo a própria dor? E pensara em Virginia, na forma como ela  me deixara. Virginia - sempre calada, nunca pude compreendê-la. Mas havia Lúcia, que dissera que a felicidade é uma revolução-revólver assim como as letras de Lennon e McCartney. Havia também aquela atmosfera de dor que tanto sufocara Vera. E então, chegara o momento decisivo: por que me envolvera com tantas mulheres? Esse pranto velado é pesar por não conseguir amá-las? 

Haveria um momento em que todas as mulheres com que  me deitara iriam cuspir em meu rosto e repetir palavras pronunciadas em músicas de Chico Buarque. O silêncio de Virginia seria desvelado pelo amor próprio. Lúcia, como me olhara certa vez, iria notar que nascera para ser feliz. E Vera - talvez a mais ingênua - choraria por mim, mas no fundo saberia que eu nunca a fizera mulher. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Minha Abbey Road


Às vezes quando me vejo descrente do amor, ouço Beatles. 
Quando me vejo sem esperanças e perdida em um mundo que carece de si mesmo, ouço Beatles. 
Quando olho para o céu e percebo que a liberdade é uma utopia, ouço Beatles. 
Quando escrevo em linhas redondas e sinto necessidade de palavras, ouço Beatles. 
Quando meu coração é tão pequeno para o silêncio, ouço Beatles.
Quando o pássaro preto pousa na minha janela cantando sobre o passado, ouço Beatles.
Quando  o sorriso é velado pela dor, ouço Beatles. 
Quando o sorriso é apenas sorriso, ouço Beatles.
Quando a lembrança é uma despedida de saudade, ouço Beatles.
Quando meu coração transborda de amor, ouço Beatles. 
Quando percebo que não pertenço a mim mesma porque o tempo é apenas uma renúncia, ouço Beatles. 
Quando alcanço o profundo de mim, ouço Beatles.
Quando a arte justifica a vida, ouço Beatles. 









terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Frágil


Porque havia o perder-se.  Era tão natural quanto julgara ser o amor? E escrevera assim: “Amor”.  E repetira Esta palavra uma centena de vezes.  É que através do símbolo ela poderia atingir o simbolizado – e era Deus?  Ela sabia, então.  Era preciso, primeiramente, entregar-se a si mesma, para depois, depois...Dispor a si própria era o passo que faltara. Porque o mundo se mostrara pleno após esse reconhecimento. Ela não podia acreditar em um Amor injusto: sofrer era natural? 
 Certa vez ela se entregara toda a outra pessoa sem nem se dar conta de si mesma, mas se ferira.  Fora então que lera em algum lugar que o esquecimento era a melhor forma de vingança e também o melhor perdão. Queria dizer assim, com certa compaixão justificada na indiferença: eu perdôo.  Mas mentira.
 Ele, que mostrara a ela o que era viver. Com que direito ele a fizera amá-lo? Mas esse amor era diferente do Amor.  E então se precipitara em um suspiro silencioso, quase palpável. 


Potty Lazzarotto


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Para: Clarice,

Mas a verdade que sempre a espantara fora essa: a realidade sôfrega da vida. Dissera certa vez, colérica e inconsolável, que podia classificar tudo que a envolvia. Mas sabia que a esperança era algo perigoso. Intimamente, através da profunda compreensão da dor, ela não permitia que o desejo se apoderasse de si mesma. Cabia a si própria transpor limites. Por tanto querer,nada acontecera. E pensara assim: " esse profundo de mim - o que é?".  É preciso denominar, como classificar tamanha incompreensão? Ela que nunca tivera consciência de quem fora ou mesmo se tornara.  
Mas então, como que atingida por uma espécie de pensamento - pensamento aprisionado em seu inteiror, primitivo e ingênuo - essa pontada que desmitificara o mundo: se dera conta de que a beleza consistia no sofrimento. 
Ou melhor: a beleza fora criada apesar de.

Apesar do silêncio. Apesar da solidão.