sexta-feira, 1 de maio de 2015


 Ele permanecera sentado, fitava o vazio. Eu, em uma tentativa de resgatá-lo para a realidade, me aproximara e o oferecera um chocolate. Ele recusou, em um tom amável.  Neste momento, ele resolvera levantar-se: andava com cautela, consciente de que a idade já o condenava. Quando ele entrou em seu próprio quarto, longe do lugar em que eu me encontrava, eu toquei as extremidades da mesa na tentativa de apreender o momento presente: não queria que ele partisse. 

domingo, 15 de março de 2015

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O que ficou  na  minha memória foi : aqueles olhos tristes, envoltos por linhas de expressão, que me fitavam longamente como a me dizer que eu existia - eu existo. 
 Eu pertenço só a mim e essa solidão havia se tornado uma espécie de liberdade.

Bastou-lhe um intervalo e ele reconheceu que eu nada representava em sua vida. 
Vazio.
Foi então que eu percebi que só na sequência dos agoras é que eu existo. 

domingo, 8 de março de 2015

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Fui ao encontro de mim no momento em que você me abandonou. Uma parte de mim, que julgava conhecer, se fora também. E nesse tempo – inércia da vida – eu dolorosamente me (re)descobri.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

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A vida a surpreendera. "Cada coisa tem um instante em que ela é” – pensara.
 E percebera a fragilidade que é ser, mas esse ser que está no futuro. Concluíra, sentada no vagão, que a morte a espreitara desde que nascera. Mas parecia tão simples e claro, e no entanto aquelas pessoas no vagão transitavam levando mochilas, livros, absortas nos próprios problemas: elas não se davam conta de que também são finitas? Isso a machucara profundamente, como uma farpa incrustada no pé. Era doloroso, incômodo.  O tempo que passara esperando o ponto em que deveria saltar do trem, fora o suficiente para aceitar o que penosamente descobrira: carecia de amor.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Distância

Ele se esquivara de mim e engatinhara até a parede, onde roçara as costas preguiçosamente. O gato agora se aconchegara perto do sofá e dormia um sono profundo. Enquanto isso, eu aprendera a apaziguar tão bem a vida: nada me atingia com susto. A mansidão da rotina era a certeza de que se podia viver sem ser feliz.
 E o coração já não se apertava em espanto.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Relógio


Os olhos se mexiam de acordo com o movimento pendular do relógio: tic-tac- tic-tac, barulho que amortecia o tédio e o vazio.  Os ponteiros se afastavam e uma idéia a consolava: ela existia. Movida pelo simples desejo de percorrer esses ponteiros, se metamorfoseando em tic-tacs do relógio.  Tempo? Precisava inventar algo que ultrapassasse essa condição de linearidade: no fundo sabia que o desejo fora apenas uma construção desse tempo que a confundia por inteiro. O vazio, o tédio e o nojo rapidamente se transformaram em indiferença.  O que a iludia com tanta perfeição? Era possível transcrever em palavras o que sentia? Mas é que no fundo soubera, bem no fundo mesmo, que o desejo fora apenas um engano – algo criado para preencher a falta de significado. Porque percebera que buscar um sentido fora a própria incompreensão da dor. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

"Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança."


Os olhos cinza pousaram delicadamente sobre o objeto que ela observava durante a viagem. O objeto parecia se prolongar através da sombra que projetava na parede –  esse objeto que pertencera sempre à ela.  A melancolia que  a espreitara agora se tornara uma espécie de culpa. Fardo da existência.  E repentinamente um pensamento a acometera de sobriedade e dor:  a velhice a aproximava lentamente da morte - essa condição que a acompanhara desde o nascimento. E pensara que assim que nascera, tivera que lidar continuamente com a própria finitude.  Mas houvera um tempo em que acreditara ser infinita, lembrara docemente que a felicidade santificava a vida. 
A náusea a mortificara novamente. E após fitar o objeto prolongado pela própria sombra, se dera conta do que a angustiara tanto:  sonhos só existiam para preencher o lúgubre vazio da vida.  Vida que se dissipava com o tempo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

fragmentos

E esse vazio que me emerge por inteira,
nesse espaço preenchido pelo silêncio, é que sou.


Ser delicadamente

(des)figura do próprio (des)encontro.
Eu no tempo-contínuo que se afigurara
na certeza da solidão,
essa incompletude da vida.
E o tilitantar da horas
traz a certeza de que eu existo.
Enquanto a dor rompe o vazio
no mesmo lugar que se afigurara
a morte que se desfaz
pelos segundos.

O amor  resultara inútil
e não passara de um simples desatino.







terça-feira, 15 de outubro de 2013

"A vida apenas,sem mistificação"



Palavras, sou toda palavras. Mas elas são justamente as que me faltam no momento. Não sei escrever. Sinto que palavras resultam em uma confirmação de que o mundo - a vida, sobretudo - não faz sentido. 
A morte é uma condição injusta e não sei se sou corajosa como o Nietzsche ou o Ivan Karamázov para suportá-la até mesmo na miséria - aceitá-la acima de qualquer condição. Mas a questão principal é justamente essa: o homem é corajoso o suficiente para morrer? Existe esse desejo do fim ou seria apenas uma espécie de resignação dessa finitude (porque, afinal, nada se pode fazer para mudá-la)?
A arte justifica a vida, é tudo o que sei. Tento descrever através das palavras a experiência de se estar vivo: tudo que o me envolve, mas percebo que é inútil.




segunda-feira, 27 de maio de 2013

" Tomar consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido?"


Porque ela se fora e porque se deixara ir assim tão breve e súbita: ela se tornara saudade.  Porque tudo o que restara foram apenas memórias inconsoláveis: restos de pano, tecido e poesia espalhados no quarto- abrigo que sempre servira como refúgio. E eu? O que me tornara? Mas é que  eu sempre soube ser sem ela. Mas e depois? Porque o instante que escrevo é.  Meu anseio que ultrapassa essa folha de papel: o instante contínuo, esse fio frágil da vida. E repentinamente eu me dera conta de que essas palavras já são passado. Eu me tornara, eu fora - para onde? E ela? Ela que sempre fizera parte de mim. 

Porque eu me debruçara na janela e esperara por ---- acontece que eu não me alcanço. Minha vida não adquirira sentido até agora ,afinal, o que eu entendo do viver? Se eu permanecera nessa inconstância da credulidade; uma ideia  me assombrara: é que eu existo. Eu me é. É está sempre sendo. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

----------- Ponto final.

Por que aquele sofrimento não tinha fim? Porque se mortificara tanto ao ponto de que não aguentara mais: e pensara que o sentido da própria vida se encontrava nela mesma. E se dera conta arrebatada por uma surpresa, da mesma forma que observara a luz bruxuleante da lâmpada: se acometera da própria finitude.
E a solidão feria como duras farpas. E dissera assim, com o pouco que lhe aprouvera da dor: existir não é lógico.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ulisses



Ele a olhara timidamente, com certo espanto de notar que acabara de acordá-la com uma lambida. Ela abrira os olhos, despertara de um sono profundo. Fora então que sorrira para o seu cachorro. "Ele sempre tivera esse ar ingênuo de uma criatura que se doa por inteiro. Ele também sempre parecera um cão frágil que podia ser abandonado por qualquer pessoa." - pensara.  Ah, mas esse pensamento a feria como duras farpas.

 Ele que, nunca tivera consciência de si mesmo, mas  a despertara com uma alegria mansa e doce. Ele que, por apenas existir, preenchia a vida de amor.  Ele que, resignado à solidão de animal que fazia parte de um mundo ininteligível, abanara o rabo com a liberdade da vontade. 
Ela que o enxergara como um Outro. Ela que, naquela manhã, se dera conta de que ele sempre a amara.
Ele que, na condição ingênua de cachorro, soubera ser amado. 



"Esquecido agora, na ausência do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção ao dono. Ulisses o viu, voltou a cabeça e, tocado por sua aparência, verteu uma lágrima..." 
 - Odisséia



Ulysses Bôscolo

segunda-feira, 8 de abril de 2013

(in)completo


esse sufoco brando e contínuo. e sentira esse pulsar gradativo do peito - estava viva. e lembrara que tudo girara em torno do princípio do prazer:  sim, como ela poderia se abster de si mesma? fizera escolhas guiada pela justificativa cega do amor. mas que amor fora esse que se confundira todo em pranto? desse não- tempo, aceitara a condição de esperança. mas soubera desde o início que se enganara. 
 acontece que sempre pertencera à solidão. 

solidão de ser.
sol. 
sun.

here comes the sun.

mais uma vez a dura tarefa de esquecer. incompletude e vazio. 
palavra como quarta dimensão. palavra como consolo e abismo. 







domingo, 3 de março de 2013

Rabisco para Rubem Fonseca



E me apoiara na parede, pensara assim: é preciso ter compaixão, mas como é possível amar até mesmo a própria dor? E pensara em Virginia, na forma como ela  me deixara. Virginia - sempre calada, nunca pude compreendê-la. Mas havia Lúcia, que dissera que a felicidade é uma revolução-revólver assim como as letras de Lennon e McCartney. Havia também aquela atmosfera de dor que tanto sufocara Vera. E então, chegara o momento decisivo: por que me envolvera com tantas mulheres? Esse pranto velado é pesar por não conseguir amá-las? 

Haveria um momento em que todas as mulheres com que  me deitara iriam cuspir em meu rosto e repetir palavras pronunciadas em músicas de Chico Buarque. O silêncio de Virginia seria desvelado pelo amor próprio. Lúcia, como me olhara certa vez, iria notar que nascera para ser feliz. E Vera - talvez a mais ingênua - choraria por mim, mas no fundo saberia que eu nunca a fizera mulher. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Minha Abbey Road


Às vezes quando me vejo descrente do amor, ouço Beatles. 
Quando me vejo sem esperanças e perdida em um mundo que carece de si mesmo, ouço Beatles. 
Quando olho para o céu e percebo que a liberdade é uma utopia, ouço Beatles. 
Quando escrevo em linhas redondas e sinto necessidade de palavras, ouço Beatles. 
Quando meu coração é tão pequeno para o silêncio, ouço Beatles.
Quando o pássaro preto pousa na minha janela cantando sobre o passado, ouço Beatles.
Quando  o sorriso é velado pela dor, ouço Beatles. 
Quando o sorriso é apenas sorriso, ouço Beatles.
Quando a lembrança é uma despedida de saudade, ouço Beatles.
Quando meu coração transborda de amor, ouço Beatles. 
Quando percebo que não pertenço a mim mesma porque o tempo é apenas uma renúncia, ouço Beatles. 
Quando alcanço o profundo de mim, ouço Beatles.
Quando a arte justifica a vida, ouço Beatles. 









terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Frágil


Porque havia o perder-se.  Era tão natural quanto julgara ser o amor? E escrevera assim: “Amor”.  E repetira Esta palavra uma centena de vezes.  É que através do símbolo ela poderia atingir o simbolizado – e era Deus?  Ela sabia, então.  Era preciso, primeiramente, entregar-se a si mesma, para depois, depois...Dispor a si própria era o passo que faltara. Porque o mundo se mostrara pleno após esse reconhecimento. Ela não podia acreditar em um Amor injusto: sofrer era natural? 
 Certa vez ela se entregara toda a outra pessoa sem nem se dar conta de si mesma, mas se ferira.  Fora então que lera em algum lugar que o esquecimento era a melhor forma de vingança e também o melhor perdão. Queria dizer assim, com certa compaixão justificada na indiferença: eu perdôo.  Mas mentira.
 Ele, que mostrara a ela o que era viver. Com que direito ele a fizera amá-lo? Mas esse amor era diferente do Amor.  E então se precipitara em um suspiro silencioso, quase palpável. 


Potty Lazzarotto


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Para: Clarice,

Mas a verdade que sempre a espantara fora essa: a realidade sôfrega da vida. Dissera certa vez, colérica e inconsolável, que podia classificar tudo que a envolvia. Mas sabia que a esperança era algo perigoso. Intimamente, através da profunda compreensão da dor, ela não permitia que o desejo se apoderasse de si mesma. Cabia a si própria transpor limites. Por tanto querer,nada acontecera. E pensara assim: " esse profundo de mim - o que é?".  É preciso denominar, como classificar tamanha incompreensão? Ela que nunca tivera consciência de quem fora ou mesmo se tornara.  
Mas então, como que atingida por uma espécie de pensamento - pensamento aprisionado em seu inteiror, primitivo e ingênuo - essa pontada que desmitificara o mundo: se dera conta de que a beleza consistia no sofrimento. 
Ou melhor: a beleza fora criada apesar de.

Apesar do silêncio. Apesar da solidão. 



domingo, 23 de dezembro de 2012

"Eu, viva e tremeluzente como os instantes"



Esboçara esse sorriso diante da lembrança que tivera: o desejo de ser a ultrapassara. Ela, que nunca fora.  O seu primitivo pulsara por vida – seria essa, afinal, a palavra que tanto procurara: liberdade? E dissera assim, como se tivesse cometido um crime: Sou livre e só. E  então o medo lhe atingira porque descobrira com espanto como é ser  mulher.  
Durante parte de sua vida nunca adquirira consciência de si mesma, era como se vivesse em uma espécie de hiato. O que a distinguia do cachorro que viera recepcioná-la com um amor ingênuo? Pensara assim:  Ele não sabe que um dia vai morrer. Era isso então. E por um breve instante, ela intimamente invejara aquele animal.   

E os dias se estendiam vagarosamente: pareciam intermináveis. Perguntara a si mesma: e depois? O que vem depois? Mas aos poucos uma ideia lhe sobressaltara: o inesperado a consolava.  Porque se sentira frágil e pequena, tudo a feria. Ela que quisera tanto, como se pudesse se apoderar de tudo que a envolvia.  Como se de repente a realidade pudesse ser expressa em palavras – mas sabia que era inútil. Tudo não passara de um sonho, afinal.  

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Velado



O que sucedera? Porque escrevo como se essa fosse minha última tentativa. 
Vou para - eu que, na tentativa frustrada de ser amada, feri a mim mesma. 
Mas eu sei, eu sei, eu sei que me quero por inteira. Eu que fora plena algum dia. 
Mas é preciso ultrapassar essa condição de dor, porque a liberdade se dispõe no mundo. Eu que escrevo apenas porque quero ser sem medo. E me fitara assim  porque  eu  lhe dera um nome, porque eu o inventara.  
Você, que com sua natureza tão ingênua, percebera o meu olhar pousar alheio na placidez da sala de estar. E eu, que o enxergo senão por mim mesma, você que me tem.  

"The Italian Model" -  Mabel Alvarez

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Palavra


Esse instante que  não é: enquanto escrevo o instante-já não é mais o mesmo. Ele mudara assim como eu. 
Escrevo porque a incompletude advinda da liberdade - diria atemporal - me dói. Escrevo porque não vejo sentido em não ser: eu que fora e não sou mais, eu que renunciara a mim mesma no instante-já.  Perceba: o instante-já é apenas uma classificação para um tempo que me ultrapassa e me dilacera. A condição de não-ser é dolorosa. Eu  classifico o que me envolve: escolhi compreender o amor da maneira mais ingênua possível; eu que ainda não morri.  Eu que me vejo perdida entre a compreensão aprofundada de mim e do amor não-correpondido do outro.  Até quando o outro me é?  E esse estremecimento de mim? Eu que existo com tamanha delicadeza - essa tristeza dos meus olhos, o que são eles?  Sou-me.